Compondo e decompondo a própria vida

Arte: Antony Gormley

Estamos, a todo momento, estabelecendo conexões com lugares, pessoas, atividades, afetos e coisas. A questão é: quais conexões nos ampliam, nos alegram e nos estimulam a vida, e quais nos diminuem, bloqueiam ou inferiorizam a vida?

Estamos, a todo momento, compondo a nós mesmos, num devir constante que se faz e se desfaz em permanente transformação. A questão é: como estamos compondo a nós mesmos? Como nos parece essa composição? Do que queremos nos aproximar e do que preferimos nos distanciar?

Estamos, a todo momento, deixando de ser o que somos, ou o que fomos, para nos tornar outro. A questão é: como lidamos com a transitoriedade da existência? Como fazemos e desfazemos a nós mesmos? O que queremos agregar e o que preferimos dissolver?

Uma vida que se afirma não se objetifica em algo fixo, mas se reconhece na transição, experienciando as possibilidades que surgem no devir, num processo de produção contínuo, que se faz e se desfaz, estabelecendo e compondo continuamente novas conexões e experiências.

"Não poderia a vida de todos se transformar em uma obra de arte? Por que deveria uma lâmpada ou uma casa ser um objeto de arte, e não a nossa vida?"
(Michel Foucault)

Como compor outros modos de vida a partir de nossas diferenças, singularidades, peculiaridades e esquisitices? Essa talvez seja a questão mais importante para considerar a vida enquanto um processo que segue e se transmuta a cada momento, que não parte de uma normativa.

Trata-se de experimentar, criar algo que ainda não existe, se diferenciar, não buscando uma identidade ou uma unidade, mas conexões que ampliam nossa potência de agir. A composição conecta elementos distintos, é contrária à identificação, que centraliza e unifica.

A criação se faz na multiplicidade e na heterogeneidade, em contrastes e paradoxos. Ela afirma nossa singularidade em transição, em experimentação, não como algo acabado, mas enquanto um processo, que se faz e se desfaz, que se compõe e decompõe a cada momento.

"O principal interesse na vida e no trabalho é tornar-se alguém que você não era no início. Se você soubesse quando começou um livro, o que você diria no final, você acha que teria coragem de escrevê-lo? (...) O jogo vale a pena na medida em que não sabemos qual será o fim."
(Michel Foucault, entrevista de 1982)

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