Camelo, leão e criança em Nietzsche

Nietzsche fez um diagnóstico da cultura ocidental, propondo uma disposição ativa e criativa diante da vida, como alternativa ao esvaziamento de sentido gerado pela crise dos valores da tradição. Ele propõe a metáfora das "três metamorfoses do espírito" como um percurso para superar os antigos valores, abrindo caminho para a criação de novos valores, afirmando a vida de maneira potente e criativa.

Essa postura criativa é um prenúncio para a transvaloração dos valores, que consiste na destruição dos valores decadentes e sua substituição por outros que afirmam a vida em sua plenitude e seu caos, considerando tudo o que há de bom ou ruim, belo ou feio, harmônico e desarmônico. Desta maneira, nos tornamos um "espírito livre", criador e legislador de novas tábuas de valores em favor da vida.


As Três Metamorfoses do Espírito

A metáfora das três metamorfoses aparece nos primeiros textos de "Assim Falou Zaratustra", simbolizando as etapas do espírito humano em sua jornada de libertação e criação. Nietzsche anuncia esta passagem por meio de três figuras: o camelo, o leão e a criança.

"Três metamorfoses do espírito vos menciono: como o espírito se transforma em camelo, e o camelo em leão, e o leão, por fim, em criança.”
(Nietzsche, em 'Assim Falou Zaratustra')



Camelo: O Espírito que Suporta

O texto inicia com a figura do camelo, que simboliza o espírito que se submete, um animal de carga que suporta a vida como um fardo, carregando o peso dos valores herdados, como a moral, a religião, a tradição. O camelo representa a obediência, a disciplina e a renúncia de si.

"O que é mais difícil, ó heróis? Pergunta o espírito de carga, e ajoelha-se como o camelo, que deseja ser bem carregado.”
(Friedrich Nietzsche, em 'Assim Falou Zaratustra')

Embora haja força na resistência, o camelo ainda carrega o peso da moralidade tradicional. Ele precisa caminhar para bem longe, indo até o deserto para se transformar, viver uma experiência de solidão, distanciamento e uma espécie de crise existencial, como condições propícias para sua transmutação.


Leão: O Espírito que Nega

No deserto, o camelo se transforma em leão, o "rei da selva", que neste contexto deseja ser o rei de si, ou "senhor de si", representando a força daquele que nega e que se rebela contra os dogmas e os “valores absolutos”. Seu principal inimigo é o "grande dragão" da moralidade e da tradição.

"Mas no mais solitário dos desertos ocorre a segunda metamorfose: aqui o espírito torna-se leão, quer conquistar sua liberdade e ser senhor de seu próprio deserto. Ele busca aqui seu último senhor: quer ser inimigo desse senhor e de seu último Deus; quer lutar com o grande dragão.”
(Nietzsche, em 'Assim Falou Zaratustra')

O dragão brilha com escamas que carregam a inscrição: “Tu deves”. Representa a autoridade da tradição, dos valores morais que seguimos frequentemente sem nos questionar, que parecem sagrados e intocáveis. O leão responde com um “Eu quero!”, seu gesto para romper com a moral instituída. Apesar disso, o leão ainda é incapaz de criar. Ele destrói, mas ainda não consegue criar.


Criança: O Espírito que Cria

A última metamorfose é quando o leão se transforma em criança, representando a espontaneidade, a inocência e a criação de novos valores. Trata-se do espírito que cria, experimenta e brinca com o jogo da vida. Sua disposição destrói o antigo para dar lugar ao novo. Seu “sagrado dizer sim” consiste na aceitação alegre da existência sem a necessidade de justificativas morais, metafísicas ou sagradas.

“Mas dizei-me, irmãos: que pode a criança que o leão não pôde? Por que tem de o leão tornar-se criança ainda? (...) A criança é inocência, é esquecimento, um novo começo, um jogo, uma roda que gira por si mesma, um primeiro movimento, um sagrado dizer sim.”
(Nietzsche, em 'Assim Falou Zaratustra')

Na filosofia de Nietzsche, essa metamorfose não se trata de uma crise, mas uma oportunidade, onde podemos nos libertar das velhas tábuas de valores e assumir a tarefa de compor novos valores partindo da vida e afirmando ela. Esse é o papel da disposição ativa, que enfrenta a moral decadente para compor novos valores em favor da vida.

Sua metáfora do "camelo, leão e criança" simboliza essa travessia. Cada etapa é parte de uma caminhada, que segue da submissão aos valores morais estabelecidos para uma atitude de negação, seguindo para a criação de novos valores. Nietzsche convida o "espírito livre" a trilhar esse caminho, não em busca de verdades eternas, mas para afirmar a vida com todo seu caos e plenitude.


Referências:
NIETZSCHE, Friedrich. Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
NIETZSCHE, Friedrich. A vontade de poder. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da moral. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

Romper com Moralismos

Inspirado em Nietzsche, este ebook é um convite para rir do moralismo, abrir espaços de liberdade e compor a vida como obra de arte. Para libertar-se das culpas herdadas, de julgamentos que diminuem e regras que seguimos sem questionar...