Psicologia e política

Em psicologia há diversas teorias sobre as maneiras de ser das pessoas, sobre suas emoções, seus modos de pensar, seus entendimentos de mundo, seus modos de se relacionar com os outros e consigo mesmo, etc. Essas teorias servem de base para as abordagens em psicoterapia, que atuam com intuito de "melhorar a saúde emocional".

Cada uma das teorias busca compreender e lidar as emoções, com questões cognitivas, outras referentes ao desenvolvimento humano, sobre a relação com outras pessoas e espaços, sobre os modos de ser e se colocar no mundo, entre tantos outros aspectos. Deste modo, cada teoria entende o ser humano e seus modos de ser de uma maneira específica, de acordo com seus pressupostos teóricos.

A psicanálise freudiana, por exemplo, entende o ser humano orientado por um aparelho "inconsciente", onde a pessoa revive constantemente seus traumas e repressões da infância de maneira inconsciente, buscando preencher suas faltas, de modo que sua personalidade é constituída pela relação com os pais ou cuidadores, em sua infância. Trata-se de uma teoria com o foco no inconsciente da pessoa.

Nas teorias comportamentais, o ser humano é entendido como resultado dos processos de adaptação ou inadaptação ao meio, sendo por este condicionado positivamente ou negativamente, de modo que uma série condicionamentos conduzem os seus modos de ser, de se relacionar com os outros e consigo mesmo. Concebe o indivíduo, portanto, como fruto do meio social e cultural.

Diferente dessas duas, as teorias existenciais e humanistas entendem cada pessoa como um ser singular em transformação, que se constrói por meio de suas experiências, mas que também é transformando elas, não sendo determinado apenas por sua infância ou por condicionamentos passados, mas estabelecendo uma relação dialética com os outros e os espaços que convive, orientado por suas escolhas, de acordo com o que faz sentido num dado momento.

Percebe-se, portanto, que na psicologia não há um entendimento único sobre o que seja o "ser humano", mas coexistem distintas perspectivsa. Assim, cada teoria estabelece um entendimento de ser humano e de mundo, inclusive da relação entre ambos, envolvendo a posição que cada pessoa ocupa nos espaços onde transita, frequenta e vive, bem como a influência desses espaços na experiência da pessoa.

Cada abordagem em psicologia opera também uma prática política, muitas vezes de maneira velada, pois cada uma propõe um entendimento sobre a relação entre pessoa e o mundo, a relação entre pessoa e as outras pessoas, entre pessoa e os espaços que transita. Assim, nenhuma psicologia é neutra, pois toda abordagem de psicologia pressupõe um entedimento sobre a relação entre a pessoa e o mundo, inclusive o que é tido por "saudável" ou não.

A grande maioria dos psicólogos pouco reparam nessa relação próxima entre a psicologia e a política. Muitas das faculdades de psicologia nem tratam sobre essa temática, aparentando haver uma espécie de "neutralidade" no campo das ciências. Como se a concepção de mundo da teoria ou do terapeuta não interferisse seu trabalho.

O termo política, aqui utilizado, tem um sentido amplo, relacionando-se com o modo como cada pessoa se relaciona com as outras pessoas, com os espaços e consigo mesma; como um indivíduo acata ou rejeita algo, como se posiciona ou não diante das circunstâncias e situações que lhe acontecem.

As teorias ou abordagens em psicologia supõem uma maneira de atuação da pessoa com as outras. Algumas entendem o indivíduo enquanto resultante das relações com a família ou de suas relações sociais, outras consideiram a mudança apenas a nível pessoal, sem explorar sua relação com os outros ou com os espaços, sugerindo, de maneira sutil, uma certa "adaptação" ao meio.

Mas há outras que entendem o ser humano numa constante relação com o mundo, com a economia e com a cunhada, sendo transformado por ele e também nele exercendo transformações, entendendo o ser humano mais ativo, do que apenas respondente. Estas favorecem uma maior capacidade do indivíduo em lidar não apenas com suas dificuldades, mas também com os outros indivíduos e espaços.

Há uma grande diferença entre as tendências voltadas para a adaptação do indivíduo e aquelas que o entendem como um ser atuante no mundo, não apenas voltado para sua existência, mas ativo em suas relações com os outros e com o mundo. Há psicologias se focam nas dificuldades de uma pessoa como uma questão meramente individual, e outras que abrem margem para uma mudança de atuação da pessoa consigo mesma e também com as outras pessoas e espaços.

Independente da forma de psicologia e da atuação, ambas possuem posicionamentos políticos ocultos, uma entendendo que o sofrimento do indivíduo é uma questão meramente pessoal e que a pessoa deve se tratar e se "ajustar", enquanto que outra entende o sofrimento do indivíduo como reflexo de suas relações, e que portanto é necessário uma revisão sobre suas maneiras de lidar com os outros indivíduos e espaços, de modo a tornar suas relações também mais saudáveis.

Muitas são aquelas que acabam por enquadrar a pessoa em classificações e apresentar "soluções" por meio de métodos de "adaptação" ao meio, sem questionar o "status quo". Por isso, é preciso muito cuidado e atenção pra diferenciar uma forma de psicologia de outra.

"A Psicologia para mim, hoje, não passa de um ramo da Política. Um ramo ou aliado poderoso que, aliás, vem servindo à manutenção dos sistemas autoritários, fingindo ser uma ciência apolítica e independente."
(Roberto Freire, em 'SOMA: uma terapia anarquista. Vol 2', 1991)

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