Será que chegamos num ponto em que a própria vida entrou em colapso? Não no sentido de um desastre ou de uma mudança colossal, mas de algo mais íntimo, cotidiano e silencioso, uma sensação de exaustão difusa, uma espécie de burnout da existência.
Vivemos numa sociedade que transformou tudo em desempenho. Não basta viver, é preciso performar e render, mostrar e provar. Todos os aspectos de nossa vida passaram a ser gerenciados, onde até mesmo o descanso precisa ser produtivo, até o prazer precisa ter um propósito.
O mundo se tornou uma imensa arena onde cada pessoa parece estar lutando para ser percebida, para fazer algo de sua existência, para não desaparecer, para não se sentir “inútil”, para não ser engolida pela sensação de não saber fazer nada de especial ou grandioso.
Penso sobre o que gera essa sensação? Talvez não seja uma questão pessoal, mas um sintoma coletivo e amplo. Estamos adoecendo de uma sociedade de performance, capitalista e narcisista, que converteu o viver em sobrevivência, e a sobrevivência constante drena nossa energia de vida.
“O sujeito do desempenho, que se julga livre, é na realidade um servo: é um servo absoluto, na medida em que, sem um senhor, explora voluntariamente a si mesmo.”
(Byung-Chul Han, em 'Psicopolítica')
Acordar todos os dias como se fosse o primeiro, como se tivesse que fazer algo genial ou cumprir metas, é uma forma de inferno contemporâneo. Tudo sempre parece estar começando novamente, nada se sustenta. A sensação de começar de novo todo o tempo desgasta o sentido, colapsa a narrativa do eu.
O corpo resiste, toma banho frio, faz dietas e exercícios, fica até mais tarde no serviço, mas algo na existência pesa. A cada tentativa frustrada nossa energia vital se dispersa, até que aparece mais claramente a saturação. Não se trata de um cansaço de trabalhar, mas um cansaço de existir.
Nossa experiência cotidiana se parece com a de Sísifo, condenado a empurrar uma pedra montanha acima sabendo que no dia seguinte ela estará novamente lá embaixo. Recomeçar deixa de ser esperança e se torna um castigo. Cada tentativa frustrada corrói um pouco mais a vontade de tentar de novo.
Acordar já cansa. Pensar em começar algo gera um peso físico, quase uma resistência muscular à ideia de seguir. Não é preguiça, não é falta de vontade. É saturação. Uma vida inteira passada se esforçando para caber num mundo que não oferece chão.
"Como contraponto, a sociedade do desempenho e a sociedade ativa geram um cansaço e esgotamento excessivos. (...) O excesso da elevação do desempenho leva a um infarto da alma."
(Byung-Chul Han, em 'Sociedade do cansaço')
Talvez o que nos chega como um desânimo generalizado seja o nosso corpo dizendo “basta”. Basta dessa lógica de guerra constante, que atravessa até mesmo as relações mais íntimas. Basta de medir o valor de viver pela quantidade do que se produz. Basta de correr sem parada, como barata tonta.
Esse esgotamento pode ser um sintoma lúcido de quando viver se torna exaustivo. De que algo está errado no modo como a vida está sendo organizada. Um “não” silencioso à performance constante, às comparações e à obrigação de se reinventar. Talvez o colapso não seja falha, mas sinal.
O sentimento de inutilidade pode não ser resultado de uma falha pessoal, mas do excesso de exigências. Quando tudo precisa virar projeto, o que não se converte em resultado é visto como tempo perdido. E ninguém aguenta viver se sentindo descartável o tempo todo.
Esse “burnout da existência” não é apenas uma metáfora, mas o sintoma de uma época que nos pede sempre mais do que conseguimos fazer. Talvez o desafio agora não seja “ser mais produtivo”, mas reaprender a existir, encontrar pequenos refúgios de não-desempenho, experienciar o nada.
"A sociedade de desempenho é uma sociedade de autoexploração. O sujeito explora a si mesmo até consumir-se completamente (burnout). Ele desenvolve nesse processo uma agressividade. (...) O projeto se mostra como um projetil, que o sujeito de desempenho direciona contra si mesmo."
(Byung-Chul Han, em 'Sociedade do cansaço')
Há dias que a pergunta não é mais “o que eu quero fazer da vida?”, mas “como sustentar estar vivo desse jeito?”. Não se trata de uma tristeza pontual, nem de uma crise específica, mas de uma fadiga constante que acompanha tudo. Uma sensação de que o futuro ficou pesado demais para carregar.
Neste momento de excesso de movimento e ação, talvez o gesto mais revolucionário seja nada fazer, simplesmente recusar a ideia de continuar se esgotando cada vez mais. Trata-se de deixar de sobreviver e começar, de algum modo, a viver novamente.
Viver sem produzir, sem provar, sem melhorar, começa a parecer um contraponto a essa sociedade de desempenho. Deixar a vida decantar, se abrir a um intervalo improdutivo, onde algo diferente possa finalmente emergir. Não como meta, mas como possibilidade de continuar de outro modo.
"A dificuldade hoje não é mais que não podemos expressar livremente nossas opiniões, mas criar livres espaços de solidão e silêncio em que encontremos algo a dizer. As forças repressivas não nos impedem de expressar nossa opinião. Ao contrário, elas até nos obrigam a isso. Que libertação é ao menos uma vez não ter que dizer nada e poder ficar em silêncio, porque só então temos a possibilidade de criar algo cada vez mais raro: algo que realmente valha a pena ser dito."
(Gilles Deleuze, em 'Conversações')
Referências Bibliográficas:
DELEUZE, Gilles. Conversações: 1972–1990. Tradução de Peter Pál Pelbart. São Paulo: Editora 34, 1992.
HAN, Byung-Chul. Psicopolítica: o neoliberalismo e as novas técnicas de poder. Tradução: Maurício Liesen. Belo Horizonte: Âyné, 2020.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço. Tradução: Enio Paulo Giachini. Petrópolis, RJ: Vozes, 2017.

