Em nosso tempo e cultura, fomos habituados a encarar a ciência como portadora de uma verdade privilegiada, reconhecendo seus saberes como legítimos e atribuindo autoridade a seus conhecimentos. A ciência aparece, assim, como uma explicação objetiva do mundo e da vida e uma descrição rigorosa do real.
Contrapondo esta perspectiva, o filósofo francês Michel Foucault colocou em questão a posição da ciência em nossa sociedade e o modo como ela atua em nossas vidas, entendendo que o saber científico não "descobre" o mundo, mas produz uma leitura e organização específica de mundo.
Segundo Foucault, a ciência é uma prática histórica de produção discursiva, um modo de organizar entendimentos, enunciados e métodos que oferece uma leitura de mundo, usando termos como "normalidade", "identidade" ou "transtorno", governando condutas e modelos de vida.
“A ciência é essencialmente discurso, um conjunto de proposições articuladas sistematicamente. Mas, além disso, é um tipo específico de discurso: um discurso que tem pretensão de verdade. (...) A ciência não reproduz uma verdade; cada ciência produz sua verdade. Não existem critérios universais ou exteriores para julgar a verdade de uma ciência.”
(Roberto Machado, em 'Foucault, a ciência e o saber')
O “saber científico” é resultado de uma composição histórica de práticas discursivas e não discursivas que definem o que pode ser dito, como pode ser dito e quem pode dizer. Assim, determina noções como "loucura", "delinquência" ou "sexualidade", estabelecendo lugares de fala, reservados aos "especialistas", como o perito, o médico, o juiz, o psicólogo e o professor.
A questão principal para Foucault não era "o que é verdadeiro?", mas "como um discurso passou a funcionar como verdadeiro, em que condições e quais seus efeitos?". Não se trata de negar a existência de fenômenos, mas mostrar que a verdade científica funciona dentro de regimes de poder e produz modos de pensar e viver.
Essa análise não pretende negar o valor empírico das ciências, mas investigar as condições históricas que tornaram possível que certos discursos funcionassem como científicos e verdadeiros numa época. O problema de Foucault não é o método científico em si, mas as condições históricas e sociais que permitem que determinados saberes adquiram autoridade de verdade.
Foucault analisou os saberes enquanto algo que emerge sob condições sociais, históricas, institucionais, técnicas, linguísticas e políticas específicas, tornando certos enunciados pensáveis, dizíveis e utilizáveis. Sua análise se direciona para as condições de aparecimento de certos saberes e entendimentos em cada época e contexto.
Seu método arqueológico investiga as condições históricas dos saberes, escavando as disposições históricas que tornaram seu enunciado possível e o transformaram numa formação discursiva. Trata-se de um procedimento que revela os sistemas de pensamento e as disposições estruturais de uma época, que configuram uma compreensão do mundo.
Para Foucault, a história dos saberes não é um progresso cumulativo, mas atravessa rupturas, reorganizações e deslocamentos. O que muda não é apenas o conteúdo, mas toda a configuração do saber: o entendimento do que é um “objeto” científico, o que vale como “método” e “prova”, e o que é considerado “racionalidade” em cada período.
"A verdade é deste mundo; ela é produzida nele graças a múltiplas coerções e nele produz efeitos regulamentados de poder. Cada sociedade tem seu regime de verdade, sua 'política geral' de verdade: isto é, os tipos de discurso que ela acolhe e faz funcionar como verdadeiros; os mecanismos e as instâncias que permitem distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos, a maneira como se sanciona uns e outros; as técnicas e os procedimentos que são valorizados para a obtenção da verdade; o estatuto daqueles que têm o encargo de dizer o que funciona como verdadeiro."
(Michel Foucault, em 'A microfísica do poder')
O saber científico se constitui por meio de técnicas e materialidades, como prontuários, fichas, relatórios, estatísticas, medições, exames, protocolos, normas e práticas institucionais. Sua produção é indissociável de seus modos de registro e de seus dispositivos de circulação, o que se escreve é utilizado para classificar, comparar e tornar governável.
Foucault constata uma estreita relação entre
saber e poder, onde o saber estabelece um modelo de leitura de mundo e formas de governo sobre a vida, determinando quais discursos são aceitos como verdadeiros, quais instituições distinguem verdadeiro do falso, quais procedimentos produzem o real, e qual o estatuto dos autorizados a dizer a verdade.
Uma das grandes teses de Foucault é a passagem de uma centralidade do jurídico (lei, interdito, soberania) para as tecnologias da norma, que visam comparar, hierarquizar, medir, definir padrões, corrigir desvios e produzir os ditos “anormais”. Essa normalização se expressa em saberes especializados, como a medicina, a psicologia, a psiquiatria, a pedagogia e a criminologia, fazendo delas instâncias de classificação e intervenção.
"(...) sob a forma de testes, de entrevistas, de interrogatórios, de consultas, o vemos retificar aparentemente os mecanismos da disciplina: a psicologia é encarregada de corrigir os rigores da escola, como a entrevista médica ou psiquiátrica é encarregada de retificar os efeitos da disciplina de trabalho. Mas não devemos nos enganar: essas técnicas apenas mandam os indivíduos de uma instância disciplinar a outra, e reproduzem, de uma forma concentrada, ou formalizada, o esquema de poder saber próprio a toda disciplina."
(Michel Foucault, em 'Vigiar e Punir')
Foucault destaca o exame (avaliações escolares, laudos diagnósticos, relatórios de conduta e testes psicológicos) como uma tecnologia fundamental que individualiza, documenta, compara e torna o sujeito legível a uma máquina de correção. Seu “saber” não “descobre” o interior do indivíduo, mas produz um interior governável, diagnosticável, corrigível e treinável.
O exame é um
dispositivo disciplinar que articula saber e poder, produzindo registros, classificações e comparações, transformando o indivíduo num caso analisável, convertendo as diferenças em desvios mensuráveis. Seja no ambiente escolar, médico ou psiquiátrico, ele constitui o sujeito como objeto de conhecimento, que ao avaliar, normaliza; e ao medir, produz uma verdade sobre o indivíduo.
Aqui vemos uma relação entre saber e subjetividade, onde o saber não apenas
descreve os sujeitos, mas fabrica sujeitos, por meio de uma tecnologia de
subjetivação que cria identidades, estabelece categorias e apresenta narrativas. Entre elas podemos pensar o “louco” na psiquiatria, o “delinquente” na criminologia e na penalidade, a distinção entre “normal e anormal” na psicologia.
Segundo
Foucault, as ciências humanas não apenas descrevem o ser humano, mas produzem regimes de verdade que orientam e direcionam a condução das condutas.
Psicologia, psiquiatria, sociologia, criminologia e pedagogia operam por
meio de categorias, classificações e normas que configuram modos de
subjetivação, promovendo uma ortopedia da subjetividade.
Deste modo, a ciência não é um acúmulo de verdades puras, mas um sistema organizado de linguagem, proposições e práticas discursivas, que produz conhecimento por meio de um conjunto de proposições articuladas sistematicamente (teorias, leis, teses). Além disso, seu discurso tem a pretensão de oferecer uma verdade sobre as pessoas e o mundo.
O discurso científico define o que é considerado verdadeiro ou falso numa época, moldando a realidade em vez de apenas a descrever, organizando o mundo por meio de suas lentes. Esse discurso é regulado por normas, métodos e linguagens próprias que determinam o que pode ser dito, pensado e aceito como científico num determinado momento.
Nesse sentido, a questão foucaultiana não é saber se a ciência diz a verdade sobre o mundo, mas compreender como determinadas formas de verdade se constituem historicamente e passam a organizar nossa maneira de pensar, agir e viver.
Referências:
FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2004.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Organização, introdução e revisão técnica: Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 2004.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 2009.
MACHADO, Roberto. Foucault, a ciência e o saber. Rio de Janeiro: Zahar, 2006.