Diferença na filosofia da diferença

A palavra “diferença” costuma ser entendida como uma variação, um desvio perante algo que "não é igual". A filosofia da diferença, porém, não a trata como um atributo secundário em relação a algo, como se ela aparecesse depois que o “mesmo” já está dado. Ela desloca o eixo: a diferença não é um acidente daquilo que repete, mas o que repete é um efeito dos processos de diferenciação.

Por não ser um desvio com relação a algo que já teria uma identidade, mas a própria realidade, ela é originária e produtiva. Entende-se que o real se faz por processos de diferenciação, que geram singularidades, multiplicidades e mudanças. Por isso, a diferença não é um atributo secundário das coisas, mas o próprio modo delas. A identidade, as essências e a repetição são recortes de processos de diferenciação.

Deste modo, a pergunta filosófica é deslocada da busca da essência, identidade, verdade ou repetição (característico da questão “o que é?”), se direcionando para as condições e potências de movimentos de diferenciação (perguntando “como se produz?”, “com o que se conecta?” ou “o que pode?”). Por isso o trabalho se dedica a cartografar variações, devires, linhas de força e invenções de vida, em vez de reduzir experiências a identidades, normas e universais. 

Esse deslocamento tem consequências epistemológicas, alterando o que se entende por conhecer, onde não se busca reconhecer identidades estáveis, mas acompanhar processos; ontológicas, modifica-se o que se entende por "ser", não mais como substância, mas movimento, devir, produção, multiplicidade; e por fim, éticas e políticas, numa nova concepção sobre normatizar a vida, onde a norma passa a ser vista como máquina de produzir o mesmo e reduzir variações.

“Queremos pensar a diferença em si mesma e a relação do diferente com o diferente, independentemente das formas da representação…”
(Gilles Deleuze, em Diferença e Repetição)

Na filosofia tradicional, grande parte se organiza no modelo da representação, buscando nomear, classificar, reconhecer, suprimindo o singular ao geral, concebendo a diferença apenas como variação de um modelo. Por isso que a perspectiva da diferença prefere trabalhar com noções como a singularidade (o que não se esgota numa categoria), a multiplicidade (campo de conexões e variações), a intensidade (diferenças de grau) e o devir (transformação constante).

A filosofia da diferença não toma como ponto de partida a identidade, o sujeito, a essência ou a forma, mas o que esses dispositivos resultam, como hábitos, costumes, configurações, territórios. Em vez de “o que é?”, pergunta-se: o que faz? Quais são as forças, os acoplamentos, os ritmos, as tensões, os efeitos de verdade e de corpo? A diferença não é tomada como um "conteúdo", ou uma "substância", mas como um funcionamento, um movimento e prática de variar e compor.

Suely Rolnik menciona duas concepções de diferença, uma que corresponde a traços que distinguem indivíduos ou grupos enquanto “identidades” e a diferença intensiva, que abala as identidades, dissolve figuras calcificadas e nos separa de nós mesmos, que envolve o intempestivo. Segundo ela, a subjetividade é atravessada por forças, fluxos e recomposições contínuas, e quando essas recomposições atingem um limiar, irrompe um acontecimento que anuncia uma transformação no modo de subjetivação. 

"As diferenças às quais me refiro não tem um sentido identitário, estabelecido a partir da perspectiva da representação - as supostas características específicas de cada indivíduo ou grupo, que os distinguiriam de todos os outros. Ao contrário, refiro-me às diferenças no sentido daquilo que justamente vem abalar as identidades, estas calcificações de figuras, opondo-se à eternidade. O inatual, o intempestivo. Diferenças que fazem diferença."
(Suely Rolnik, em 'O mal estar na diferença') 

Michel Foucault entendia que o normal, a identidade e o sujeito é produzido e mantido por normas, saberes e instituições. O que entendemos por "normal" é uma tecnologia, resultante de um arranjo de práticas, discursos e instituições. As noções de normalidade e identidade não servem apenas para proibir, mas prioritariamente para produzir saberes e padrões de conduta. 

Para Gilles Deleuze, a diferença deixa de ser "diferença entre coisas" e se torna diferença como princípio. O real se diferencia por dentro, produzindo séries, variações, singularidades. O idêntico é apenas um "congelamento" local, uma conveniência. Com Félix Guattari, a diferença ganha uma dimensão clínica e política, entendendo que a subjetividade não é interioridade natural, mas produção que envolve máquinas sociais, semióticas, tecnológicas, familiares, institucionais.

"A representação tem apenas um centro, uma perspectiva única e fugidia e, portanto, uma falsa profundidade; ela mediatiza tudo, mas não mobiliza nem move nada. O movimento, por sua vez, implica uma pluralidade de pontos de vista, uma coexistência de momentos que deformam essencialmente a representação."
(Gilles Deleuze, em Diferença e Repetição)

Em vez de interpretar procurando um sentido oculto unitário, a perspectiva da diferença tende a mapear regimes de forças, séries, conexões, linhas de fuga, capturas, territorializações, com perguntas como: Que máquinas (familiares, sociais, midiáticas, institucionais) sustentam este modo de vida? Quais afetos (medo, vergonha, desejo, tédio, raiva, alívio) direcionam suas disposições? Onde a vida está sendo capturada por identidades rígidas? Onde há margem para variações (deslocamentos experimentos)?

Podemos pensar uma característica ética da filosofia da diferença, não no sentido de reconhecer ou celebrar a diferença, em abstrato, mas sustentar a variação sem converter em desvio, e sustentar a criação de modos de vida sem capturar em modelos prévios. Na clínica, a diferença é concebida como uma ética de composição, que não busca um rótulo, mas pensar variações e deslocamentos. A diferença não é um dado, mas uma tarefa, uma arte de compor a vida.


Referências:
DELEUZE, Gilles. Diferença e repetição. Tradução de Luiz Orlandi; Roberto Machado. Rio de Janeiro; São Paulo: Paz e Terra, 2018.
ROLNIK, Suely. O mal-estar na diferença. Anuário Brasileiro de Psicanálise. Relume-Dumará, Rio de Janeiro, 1995.

Romper com Moralismos

Inspirado em Nietzsche, este ebook é um convite para rir do moralismo, abrir espaços de liberdade e compor a vida como obra de arte. Para libertar-se das culpas herdadas, de julgamentos que diminuem e regras que seguimos sem questionar...