Há quem diga que o pior prisioneiro é aquele que vive ensimesmado, que se tornou autor de sua própria vigilância.
Quando pensamos numa prisão, geralmente nos vem as imagens de grades, muros, cadeados e trancas. Mas, há uma prisão mais sutil, menos perceptível e mais difícil de nomear, onde o carcereiro atua na própria consciência. Suas grades são feitas de certezas e convicções, a chave é acessível, mas o prisioneiro não consegue alcançar a vista.
Trata-se de uma prisão de certezas, onde o prisioneiro sabe muito bem como o mundo funciona, tem muitas certezas de como as coisas são, identifica facilmente o que quer validar ou rejeitar. Toda essa certeza é muito confortável, pois a dúvida o corrói. Duvidar seria abrir uma fresta para se contradizer.
"As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras."
(Friedrich Nietzsche)
A certeza é a primeira parede da cela, um operador de poder que filtra o que pode ser pensado e percebido, que também impede qualquer movimento de saída. Para sair, é preciso romper e duvidar, e o prisioneiro de suas certezas não chega nesse lugar, preferindo a segurança do que sabe ao invés do risco do que não sabe.
Por construir sua identidade em torno de certezas, o prisioneiro não permite ser questionado, ocupando sempre um lugar de superioridade diante de qualquer um que o questione. Sua identidade é uma jaula, estruturada numa rigidez que só enxerga o que confirma sua visão de mundo. Essa rigidez é uma técnica de autoaprisionamento, que filtra o mundo para se tornar inteiramente coerente com seu modo de pensar.
O prisioneiro de si mesmo carrega um policial dentro de si, que avalia a todo momento o que está pensando e fazendo, como um ruminador profissional, que repete sua leitura de mundo como se fosse a única verdade existente. Ele não larga de suas convicções, não porque sejam boas ou favoráveis, mas porque permanecer nelas é o que ele sabe fazer, é sua ocupação e identidade.
Fazer outra coisa exige criação, experimentação e risco, não apenas reação. E o prisioneiro de si vive preso num poder que é o mais difícil de reagir. Trata-se de uma forma de poder que o atravessa por dentro, como um policial interno, que gera um controle permanente e quase inacessível.
Por conta disso, sua prisão nem sempre é sentida como prisão, mas costuma ser percebida como um lar. É confortável se vestir de teorias que explicam tudo, supor já saber tudo o que é preciso. A chave está próxima, mas para usar é necessário um movimento que o prisioneiro teme mais do que a própria prisão, o de duvidar de si mesmo.
E como esse prisioneiro opera? Ele reduz a complexidade da vida a um esquema simples de explicar. Analisa a si mesmo, não como um movimento de transformação, mas como fixação, para confirmar o que já sabe. Seus incômodos e dilemas são constantemente traduzidos em determinações, o mantendo exatamente onde está. Sua crítica vira camisa de força, uma justificativa para não agir.
Esse prisioneiro ama o poder de se sentir certo, transformando sua própria rigidez em virtude. O policial interno precisa estar sempre atento, fazendo que o poder não baixe a guarda, para não admitir que também deseja o que condena, nem reconhecer que sua raiva, por mais legítima que seja, também se torna sua defesa, sua dor se transforma em teoria, e a teoria vira sua armadura.
Romper com esse policial que nos habita exige um rompimento com o prazer de ter razão, abrindo mão da certeza que protege para habitar a hesitação que transforma. Trata-se de distinguir a raiva que aprisiona da raiva que liberta, a análise que fixa da análise que desloca, o saber que se torna cela do saber que quebra as grades.
Um grande problema daquele que se policia constantemente é o mau uso do saber, ele deixa de usar para transformar, mas apenas para proteger sua leitura de si mesmo e de mundo, acreditando ver o que os outros não veem permanece num lugar teoricamente confortável, mas existencialmente insustentável.
O poder não é apenas algo que vem de cima ou que age apenas de fora, mas também algo que exercemos sobre nós mesmos, muitas vezes sem notar. Ele também opera por dentro, modelando desejos, organizando afetos, produzindo prazeres e identidades. Esse poder transforma a própria rigidez em virtude e a impermeabilidade em lucidez. É um fascismo interno e cotidiano, que se alimenta da certeza e da recusa à ambiguidade.
Foucault comenta que o fascismo não é apenas o Estado totalitário, a violência explícita ou o campo de concentração, mas também a micropolítica do cotidiano, a maneira como interpretamos a nós mesmos, como transformamos o outro em inimigo para nos sentirmos melhores, o prazer de ter razão contra todos, e a segurança de uma identidade.
Esse poder é confortável pois dispensa a autocrítica. Viver de forma não-fascista significa, antes de tudo, desconfiar de nossas convicções, abrir mão de certezas que já se calcificaram, nos permitindo contradizer sem que isso seja entendido como aniquilamento. Significa, sobretudo, reconhecer que a luta contra o fascismo começa dentro de cada um, trabalhando a rigidez dos próprios julgamentos e deslocando nossas razões e nosso amor pelo poder.

