Terapia do devir

A terapia do devir é uma prática de cuidado para com as experiências, realizada por meio do diálogo ou por diferentes formas de expressão, tendo como foco o devir, que consiste no vir-a-ser, o modo como experimentamos a vida, tal como sentimos e vivenciamos.

Trata-se de um processo que visa promover uma maior aproximação com nossas experiências, do modo como as experimentamos, bem como o contato com nossos valores, desejos, expectativas, dificuldades e sofrimentos, encarando a vida como algo belo e trágico, triste e alegre, agradável e terrível, em constante transformação.

Essa terapia busca ampliar a compreensão sobre nossos afetos e desafetos, revendo nossos modos de ser e escolhas, de modo a encontrar e criar novas maneiras de lidar com as dificuldades e sofrimentos emocionais, exercitando a liberdade de ser com responsabilidade, potencializando nossas experiências saudáveis, indo em direção ao que nos faz sentido, possibilitando uma maior abertura perante a vida e exercitando o cuidado de si.

Sua prática envolve diversos procedimentos, entre eles a arqueologia existencial, que consiste no estudo dos modos de estruturação da existência; a cartografia dos afetos, que mapeia os afetos e desafetos em relação com pessoas e espaços; a revaloração dos valores, colocando em questão os valores e as potências para uma vida mais afirmativa; e por fim a revisão e o cuidado de si.

Nesta terapêutica, a saúde emocional não é entendida como ausência de dificuldades ou sofrimentos, mas como uma disponibilidade de enfrentamento das dificuldades e dos sofrimentos. Além disso, não se parte de uma noção prévia do que seja "saúde", mas busca captar o que é saudável ou não para cada pessoa, de acordo com seus interesses, disposições e indisposições.

O atendimento ocorre por meio do interesse da pessoa a ser atendida em cuidar de suas experiências, juntamente com a disposição por parte do terapeuta, que em seu trabalho busca captar esta do modo como se sente, vive, se alegra e sofre, compreendendo os elementos que fazem sentido num dado momento, acompanhando suas mudanças, afetos e desafetos.

O terapeuta não se coloca como superior ou detentor de um saber sobre a pessoa, mas como uma pessoa disponível para escutar e captar as experiências daquele que busca por terapia, de modo a possibilitar uma tomada de consciência sobre sua própria experiência, encontrando suas alegrias e suas dores, auxiliando a lidar com suas dificuldades e sofrimentos.

A terapia não consiste em tirar a pessoa de um estado de sofrimento emocional para transporta-la a uma sensação de paz e plena alegria, isso é ilusão. O intuito da terapia é possibilitar a pessoa atendida o contato com suas dificuldades e proporcionar meios para lidar com elas, promovendo uma autonomia suficiente para que possa lidar da melhor maneira para si.

Trata-se de uma experiência, onde não há garantias de que seja possível alcançar um estado de alegria ou que uma verdade sobre a vida, ou sobre si mesmo. O possível é nos aproximarmos de nossas experiências e afetos, de modo a rever o que podemos fazer com elas: aquelas que nos fazem bem e as que não nos fazem bem, encontrando e criando novos caminhos e possibilidades para a vida.

Neste sentido, não há uma noção prévia do que seja bom ou ruim, saudável ou patológico, normal ou anormal, adequado ou inadequado, mas o que serve ou não a uma pessoa, o que a faz bem e o que não faz, partindo de sua própria avaliação, pois isso apenas a própria pessoa poderá avaliar, o papel do terapeuta é colaborar com essa constatação e ação de um cuidado de si.

O termo "terapia" vem do grego 'therapeia', que significa cuidado. O termo "devir" corresponde ao processo de mudança, movimento e transformação ao qual toda pessoa atravessa, se opondo ao "ser", que representaria uma concepção estática sobre a vida. A terapia do devir visa, portanto, o cuidado com a experiência

Sua bases teórico-práticas se originam na filosofia dos mobilistas, que se inicia com Heráclito, no século VI a.C., tendendo a entender a existência e o mundo como uma constante mudança, em transformações permanentes, ao invés de encarar a existência como algo estático e imutável.

"Nada está pronto, tudo está em permanente construção, desconstrução e reconstrução."
(Heráclito de Éfeso)

Além da filosofia, também se utiliza de referências da fenomenologia, do existencialismo, da esquizoanálise, da somaterapia, da arteterapia e da filosofia clínica. Sua prática não faz parte da psicologia institucionalizada, pois coloca em questão a tendência cientificista e positivista desta.

Essa terapia não acontece no espaço fechado de uma sala, mas pode ocorrer via internet, durante uma caminhada, numa praça ou num parque. O tempo do atendimento pode ser de 30 à 50 minutos, sendo a periodicidade combinada de acordo com as necessidades da pessoa que busca terapia, podendo ser semanal, quinzenal, mensal ou de outras maneiras.

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