Estamos todos ansiosos?

Cada ano que passa estamos mais ansiosos. De acordo com uma pesquisa realizada em 2017, pela Organização Mundial da Saúde (OMS), quase um terço da população brasileira possui um diagnóstico médico de ansiedade. Além disso, mais da metade da população se sente ansiosa em algum momento da vida. Mas, porque estamos tão ansiosos, o que acontece que nos gera tanta ansiedade?

A primeira tentativa de explicar de maneira bem objetiva, seria entender a ansiedade a partir das disposições genéticas. Na atualidade muitos cientistas se dedicam a estudos para encontrar as causas fisiológicas da ansiedade, porém muitos deles não levam em consideração as condições contextuais, que vivemos num tempo que nos coloca exigências que possibilitam a emergência da ansiedade de maneira mais intensa e aguda.

Descobrir as causas meramente fisiológicas da ansiedade não é apenas um anseio de cientistas, mas sobretudo da indústria de psicofármacos, pois se há uma causa fisiológica, basta tomar um medicamento que atue diretamente em sua origem, para tornar a pessoa “ajustada”, supondo que o comportamento e o sentimento ansioso deva ser “controlado”, partindo de uma lógica binária de “normal” versus “anormal”, “adequado” versus “inadequado”.

É de grande valia para os donos das fábricas de medicamentos encontrar as “pílulas contra a ansiedade”, pois diante do cenário atual eles terão muitas vendas e um grande lucro. Sem contar que move também um mercado de psicólogos, psiquiatras e psicoterapeutas que diagnosticam e receitam tais medicamentos. Além disso, move um desejo ainda maior, de manter a sociedade “normalizada”, onde cada pessoa exerce sua função no quadro social, evitando dissidências, surtos, conflitos, contradições e revoltas.

Tomar um medicamento para não questionar as condições de vida e de trabalho, viver uma vida “normal”, “adequada”, sem “altos e baixos”, sem mudanças bruscas, seria isso um ideal de controle social? Será isso saudável ou vantajoso? Para quem?

Há um grande problema nesta perspectiva, se a questão da ansiedade fosse meramente fisiológica, os índices de ansiedade de décadas passadas e os atuais deveriam ter poucas variações. Porém, tivemos grandes alterações nas estatísticas das últimas décadas com relação à ansiedade, com um enorme aumento da ocorrência de ansiedade. Portanto, não podemos nos guiar apenas pelos fatores fisiológicos. Precisamos considerar as questões contextuais, ou seja, o modo como vivemos a vida na atualidade.

Nunca vivemos num tempo de tantas exigências como o atual. Desde o momento em que acordamos até quando nos deitamos estamos sendo cobrados, incentivados e estimulados a fazer atividades. Temos que ter um trabalho e produzir incessantemente. Quando nos despertamos precisamos produzir a pessoa que vamos levar ao trabalho - fazemos a barba, penteamos o cabelo, vestimos a roupa de trabalho, calçamos os sapatos, passamos o café, tomamos e seguimos a jornada. Durante o trabalho somos requisitados constantemente, e fazemos o que nos pedem.

Depois do trabalho voltamos para a toca, tiramos a roupa de trabalho e colocamos a roupa de casa, ou quando possível a roupa de sair, e novamente nos ocupamos de outros papéis. Quando decidimos uma janta, preparamos ou fazemos um pedido, logo somos interrompidos por mensagens do trabalho - um aviso sobre a reunião no dia seguinte, textos motivacionais nos grupos de família e amigos, comemos. Passamos a vista nas redes sociais, vemos como os outros estão felizes, viajando, curtindo, fazendo coisas diversas, indo à academia, sentimos que fazemos pouco, que somos inferiores ou incapazes.

Nos saltam propagandas para comprar roupas novas, acessórios e (in)utilitários para a casa. Um celular novo, um carro mais moderno, um computador mais rápido. Paramos e olhamos para o que temos e nos sentimos com pouco, parece algo que sempre nos falta. De repente voltamos a vista no celular, acessamos outra rede social para nos “distrair”. Nos saltam dicas para uma vida mais produtiva e "saudável", receitas de como ganhar dinheiro, como ter uma casa mais arrumada, como limpar o tapete do banheiro.

O mundo parece nos capturar a todo momento, em cada atividade que fazemos, seja durante o trabalho ou fora dele, estão sempre nos dizendo o que devemos fazer, somos constantemente conduzidos a um modo de vida que nos estimula a fazer coisas, onde cada vez mais consumimos e somos consumidos. Se não bastasse isso, ainda precisamos parecer felizes e satisfeitos, realizados e com "paz interior". Mas não estamos. Não estamos felizes, não estamos bem emocionalmente, estamos esgotados, cansados e ansiosos.

Segundo o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, no contexto atual do capitalismo neoliberal as técnicas de poder se direcionam sobre a mente e as emoções, com o foco no aumento de eficiência e do desempenho, fazendo com que as pessoas se explorem constantemente acreditando ser livres. Aqueles que não conseguem alcançar as metas sofrem se deprimem, apesar disso não questionam o sistema ou a vida exigente, se sentem inadequados, entendendo seu sofrimento como resultante de uma falha pessoal ou "inadaptação".

A pessoa que sofre e se sente ansiosa procura ajuda, nessa busca encontra terapias diversas, dicas motivacionais e sugestões para o controle de ansiedade. Porém, a "cura" se apresenta como um “ajustamento” mais eficiente a essa vida de desempenho constante, com algumas pausas para meditar, exercitar a paz interior e voltar para a linha de produção, de modo a produzir mais e melhor. O tempo para a “paz interior” só é oferecido quando a pessoa está prestes a surtar, para poder se “reorganizar” e voltar o mais rápido possível ao trabalho.  

Segundo Han, a ansiedade que hoje vivemos é um efeito colateral do discurso motivacional, das positividades do estímulo, da busca pela eficiência e da ideia de constante superação dos próprios limites. Para o filósofo, esse conjunto de elementos compõem uma técnica mais apurada de coerção de nosso tempo, fazendo com que as pessoas se cobrem constantemente para mostrar resultados, se tornando constantes vigilantes e controladoras de suas ações.

O lema "eu posso" está promovendo um aumento de sofrimento emocional, como depressão, hiperatividade e burnout. Apesar disso, a vida precisa parecer boa e perfeita, precisamos evitar a dor a todo custo, e transformar tudo em “curtição”. O curtir se tornou o analgésico da vida, não apenas nas redes sociais, mas em todas as relações. A vida se tornou "instagramável", temos de aparentar estar felizes a todo momento, evitando e ocultando os conflitos, as contradições, as dores e os sofrimentos.

Com tudo isso, acredito que precisamos de uma parada, um tempo para rever o que estamos fazendo de nós mesmos, para repensar o modo como nos relacionamos com as exigências do mundo, de modo a possibilitar outras maneiras de nos colocar e reagir. Não no sentido de nos ajustar melhor, mas de criar outros modos de vida menos determinados por essas exigências, mais criativos e subversivos. Enfim, vislumbrar a possibilidade de uma vida que valha a pena ser vivida, e não uma vida que acaba por sucumbir no curso das coisas.

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