Ler filosofia não é adquirir conhecimentos

A filosofia não é um saber que se adquire como um curso que fazemos e incluímos no currículo, e se incluiu no currículo que se sabe de algo, mas justamente uma atividade que se põe a questionar o que sabemos, ou o que pensamos saber.

Estudar filosofia não é uma mera atividade de aquisição de conhecimentos, mas um processo de colocar em questão o que sabemos e ampliar perspectivas. Não há como pegar um livro do Nietzsche, por exemplo, ler e “saber” o que ele escreveu, há um processo complexo de reflexão sobre o que se lê, que consiste na atividade do filosofar. Ninguém lê filosofia para se tornar mais “sábio”, mas para perceber de outras maneiras e questionar o que pensa.

Quando lemos filosofia, não estamos "acrescentando" conhecimentos ou encontrando uma sabedoria sobre algo. Ler filosofia é colocar em questão o que sabemos e pensamos, a filosofia é uma jornada de questionamento incessante, um convite para desafiar nossos saberes e ampliar nossas perspectivas sobre o mundo, sobre as coisas e sobre nós mesmos, questionando aquilo que pensamos que sabemos.

A filosofia nos convida ampliar perspectivas e reflexões, explorando questões sobre a existência, a vida, a realidade, a moralidade, a política e tantos outros temas fundamentais para a existência humana. No entanto, este estudo não se resume em adquirir informações, pois a leitura filosófica nos desafia a confrontar nossas próprias concepções, nos abrindo ao desconhecido e ao inesperado.

"A filosofia é uma reflexão para a qual qualquer matéria estranha serve, ou diríamos mesmo para a qual só serve a matéria que lhe for estranha."
(Georges Canguilhem, em 'O normal e o patológico')

Ao ler sobre as ideias de filósofos ao longo da história, somos confrontados com perspectivas distintas e muitas vezes contraditórias com o que levamos. Isso nos obriga a exercitar nossa capacidade de análise crítica, questionando os pressupostos e a considerando outras possibilidades e perspectivas. Cada texto filosófico é um convite para o colocar em questão nossas próprias convicções.

A leitura filosófica nos permite valorizar a complexidade e a ambiguidade do entendimento de mundo e das coisas do mundo. Numa época onde muitas pessoas tendem à simplificação, a filosofia nos retoma a diversidade de perspectivas, abraçando as incertezas. Ela nos convida a resistir à tentação de reduzir a complexidade do mundo a fórmulas simples, a fim de revisitar e reavaliar nossas convicções.

Portanto, ler filosofia é mais do que um exercício intelectual, mas uma prática de nos abrir ao desconhecido e ao conflito de ideias. Entende que o conhecimento é um processo contínuo e a verdade nunca é algo definitivo. Assim, ao invés de nos tornarmos mais "sábios" ao ler filosofia, nos tornamos mais conscientes da vastidão do pensamento humano e da infinitude de questões que podem surgir.

"Quando alguém pergunta para que serve a filosofia, a resposta deve ser agressiva, visto que a pergunta pretende-se irônica e mordaz. A filosofia não serve nem ao Estado, nem à Igreja, que têm outras preocupações. Não serve a nenhum poder estabelecido. A filosofia serve para entristecer. Uma filosofia que não entristece a ninguém e não contraria ninguém, não é uma filosofia. A filosofia serve para prejudicar a tolice, faz da tolice algo de vergonhoso. Não tem outra serventia a não ser a seguinte: denunciar a baixeza do pensamento sob todas as suas formas."
(Gilles Deleuze, em 'Nietzsche e a filosofia')

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