A moral como problema

Costuma-se pensar a moral como uma solução, um manual para o bem-viver e uma bússola para orientar escolhas. A moral nos é apresentada como aquilo que organiza, pacifica e protege. Porém, essa imagem benevolente encobre seus efeitos colaterais. A moral não apenas orienta comportamentos, mas também produz sofrimentos, muitas vezes de maneira silenciosa, legitimada e socialmente bem vista.

O filósofo alemão Friedrich Nietzsche foi um dos primeiros a questionar a moral. Em vez de perguntar “qual é a moral correta?”, ele trocou a pergunta para “que tipo de vida essa moral produz?”. Deste modo, a moral deixa de ser vista como solução, passando a ser pensada como um problema psicológico, histórico e fisiológico.

“Necessitamos de uma 'crítica' dos valores morais e antes de tudo deve discutir-se o 'valor destes valores', e por isso é toda a necessidade de conhecer as condições e o meio ambiente em que nasceram, em que se desenvolveram e deformaram (a moral como consequência, como máscara, como hipocrisia, como enfermidade ou como equívoco, e também a moral como causa, remédio, estimulante, freio ou veneno).”
(Nietzsche, em A Genealogia da Moral)

A moral como técnica de domesticação

Nietzsche ousou questionar a moral, retirando ela do lugar de sagrado e superior, para submeter a uma investigação histórica e crítica, mostrando que não é eterna nem universal, mas uma criação humana — demasiado humana — resultante de jogos de interesse, que continuamente redefinem o “bom” e “ruim”, “verdadeiro” e “falso”, cujo valor precisa ser sempre reavaliado.

“O costume representa as experiências dos homens passados acerca do que presumiam ser útil ou prejudicial - mas o sentimento do costume (moralidade) não diz respeito àquelas experiências como tais, e sim à idade, santidade, indiscutibilidade do costume. E assim este sentimento é um obstáculo a que se tenham novas experiências e se corrijam os costumes: ou seja, a moralidade opõe-se ao surgimento de novos e melhores costumes: ela torna estúpido.”
(Friedrich Nietzsche, em Aurora) 

Para o filósofo, a moral dominante no Ocidente não surgiu do amor à vida, mas do ressentimento contra ela. Trata-se de uma moral que emerge dos fracos, que não conseguem agir e fazer algo diferente, que transformaram sua impotência em virtude. Por não conseguir agir, o ressentido mantém valores reativos, culpando e condenando quem cria e vive diferente.

“Chamou-se de ‘bom’ tudo aquilo que era útil ao rebanho.”
(Nietzsche, em Genealogia da Moral)

A moral, nesse sentido, não surgiu para libertar, mas para domesticar. Ela ensina o indivíduo a desconfiar de seus impulsos, a vigiar seus desejos, a sentir culpa por aquilo que brota espontaneamente em seus sentidos, tornando o corpo suspeito, o prazer visto como erro ou risco, e a afirmação de si como uma ameaça.

Culpa: a consequência moral por excelência

Na vida cotidiana, a moral opera sobretudo por meio do sentimento de culpa: culpa por descansar, culpa por desejar, culpa por dizer “não”, culpa por não corresponder às expectativas do outro, da família, da instituição, do ideal de sucesso.

A pessoa não sofre porque errou objetivamente, mas porque internalizou um tribunal moral que atua em sua mente 24 horas por dia. Nietzsche chama isso de má consciência, uma violência que não pode mais ser descarregada para fora e, portanto, se volta para dentro.

“Todos os instintos que não se descarregam para fora voltam-se para dentro — isto é o que eu chamo de interiorização do homem.”
(Nietzsche, em Genealogia da Moral)

Nesta perspectiva, o sofrimento emocional moderno como a ansiedade difusa, a sensação constante de insuficiência e vergonha de si não emergem apenas de traumas individuais, mas também, e em muitos casos, de uma moral que exige autocontrole permanente e pune qualquer excesso de vida.

Podemos pensar em dores profundas, como um trabalhador que se sente inferior por não “produzir o suficiente”, uma mãe que se culpa por desejar ter um tempo sozinha, um jovem que se odeia por não corresponder ao ideal de sucesso ou normalidade, uma pessoa que mantém relações adoecidas por “compromisso”, “responsabilidade” ou “lealdade”.

“A grande insolência de Nietzsche é proclamar, contra a exigência, contra o ideal de moralidade que rege nossas sociedades, que o homem moral nem é melhor, nem mesmo é propriamente bom; é apenas fraco, negativo, reativo.”
(Roberto Machado, em Nietzsche e a verdade)

Em todos esses casos, a moral não resolve o sofrimento, mas o mantém, onde inclusive a dor ganha um selo de merecimento. Qualquer desvio à moral passa a ser entendido como uma falha pessoal, e não um movimento que possa fazer bem a si.

Nietzsche contraria essa moral do sacrifício, para uma crítica radical dos valores que negam a vida, que diminuem nossas experiências, que nos enfraquecem e limitam nosso sentir e agir. Sua filosofia oferece uma tentativa de deslocar a moral do eixo da culpa para o eixo da potência.

“O que é bom? — Tudo o que eleva no homem o sentimento de poder, a vontade de poder, o próprio poder.”
(Nietzsche, em O Anticristo)

A moral como problema aparece quando percebemos que muitos valores considerados “bons” produzem corpos exaustos, subjetividades envergonhadas e existências ressentidas. O sacrifício constante não é sinal de virtude, mas de captura.

Para além da moral: experimentar outros modos de vida

Pensar a moral como problema nos possibilita questionar a moral, trata-se de perguntar: essa moral me faz mais vivo ou mais contido? Mais potente ou mais obediente? Me faz sentir mais criador ou mais culpado? Me abre caminhos ou me encerra?

Nietzsche propõe uma ética experimental, não normativa. Uma ética que não diz o que devemos fazer, mas que lança perguntas como: o que acontece quando a vida deixa de ser julgada por tribunais morais e passa a ser avaliada por seus efeitos?

Talvez o gesto mais radical, ainda hoje, seja desconfiar daquilo que nos faz sentir pequenos em nome do "bem" e da "moral", para podermos ousar uma vida menos moralizada e mais aberta a outras possibilidades de viver.


Referências:
MACHADO, Roberto. Nietzsche e a Verdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2017.
NIETZSCHE, Friedrich. Além do bem e do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
NIETZSCHE, Friedrich. Aurora: reflexões sobre os preconceitos morais. São Paulo: Escala, 2007.
NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da moral: uma polêmica. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
NIETZSCHE, Friedrich. O anticristo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

Romper com Moralismos

Inspirado em Nietzsche, este ebook é um convite para rir do moralismo, abrir espaços de liberdade e compor a vida como obra de arte. Para libertar-se das culpas herdadas, de julgamentos que diminuem e regras que seguimos sem questionar...