A moral como problema

Costuma-se pensar a moral como uma solução, um antídoto contra o caos, um manual para o bem-viver, uma bússola para orientar escolhas. A moral nos é apresentada como aquilo que organiza, pacifica e protege. Contudo, essa imagem benevolente encobre seus efeitos colaterais, pois a moral não apenas orienta comportamentos, mas também produz sofrimento emocional, muitas vezes de maneira silenciosa, legitimada e socialmente bem vista.

Nietzsche foi um dos primeiros a inverter radicalmente essa perspectiva. Em vez de perguntar “qual é a moral correta?”, ele trocou a pergunta para “que tipo de vida essa moral produz?”. A moral deixa de ser vista como solução e passa a ser entendida como um problema. Um problema psicológico, histórico e fisiológico.
 

A moral como técnica de domesticação

Para Nietzsche, a moral dominante no Ocidente não surgiu do amor à vida, mas do ressentimento contra ela. Trata-se de uma moral criada pelos fracos, pelos que não conseguem agir, que transformaram sua impotência em virtude. O que não conseguiam fazer, passaram a condenar.

“Chamou-se de ‘bom’ tudo aquilo que era útil ao rebanho.”
(Nietzsche, em Genealogia da Moral)

A moral, nesse sentido, não surgiu para libertar, mas para domesticar. Ela ensina o indivíduo a desconfiar de seus impulsos, a vigiar seus desejos, a sentir culpa por aquilo que brota espontaneamente em seus sentidos, tornando o corpo suspeito, o prazer visto como erro ou risco, e a afirmação de si como uma ameaça.

Culpa: a consequência moral por excelência

No cotidiano, a moral opera sobretudo através do sentimento de culpa: culpa por descansar, culpa por desejar, culpa por dizer “não”, culpa por não corresponder às expectativas do outro, da família, da instituição, do ideal de sucesso.

A pessoa não sofre porque errou objetivamente, mas porque internalizou um tribunal moral que funciona 24 horas por dia. Nietzsche chama isso de má consciência: a violência que não pode mais ser descarregada para fora volta-se para dentro.

“Todos os instintos que não se descarregam para fora voltam-se para dentro — isto é o que eu chamo de interiorização do homem.”
(Nietzsche, em Genealogia da Moral)

Todo o sofrimento emocional moderno como a ansiedade difusa, a sensação constante de insuficiência e vergonha de si não emergem apenas de traumas individuais, mas também, e em muitos casos, de uma moral que exige autocontrole permanente e pune qualquer excesso de vida.

Podemos pensar exemplos de dores profundas, como um trabalhador que se sente inferior por não “produzir o suficiente”, uma mãe que se culpa por desejar ter um tempo sozinha, um jovem que se odeia por não corresponder ao ideal de sucesso ou normalidade, uma pessoa que permanece em relações adoecidas por “compromisso”, “responsabilidade” ou “bondade”.

Em todos esses casos, a moral não resolve o sofrimento, mas o mantém, onde a dor ganha um selo de merecimento. A falha passa a ser entendida como um desvio à moral, não um movimento que faz bem a si.

Nietzsche contraria essa moral do sacrifício, ele não propõe a ausência de valores, mas a crítica radical dos valores que negam a vida, que diminuem nossas experiências, que nos enfraquecem e limitam nosso sentir e agir. Sua filosofia oferece uma tentativa de deslocar a moral do eixo da culpa para o eixo da potência.

“O que é bom? — Tudo o que eleva no homem o sentimento de poder, a vontade de poder, o próprio poder.”
(Nietzsche, em O Anticristo)

A moral como problema aparece quando percebemos que muitos valores considerados “bons” produzem corpos exaustos, subjetividades envergonhadas e existências ressentidas. O sacrifício constante não é sinal de virtude, mas de captura.

Para além da moral: experimentar outros modos de vida

Pensar a moral como problema nos possibilita questionar essa mesma moral, trata-se de perguntar: essa moral me faz mais vivo ou mais contido? Mais potente ou mais obediente? Me faz sentir mais criador ou mais culpado?

Nietzsche propõe uma ética experimental, não normativa. Uma ética que não diz o que devemos fazer, mas que coloca perguntas como: o que acontece quando a vida deixa de ser julgada por tribunais morais e passa a ser avaliada por seus efeitos?

Talvez o gesto mais radical, ainda hoje, seja este: desconfiar daquilo que nos faz sentir pequenos em nome do bem e da moral, de modo a ousar uma vida menos moralizada e mais aberta a outras possibilidades de viver.


Referências:
NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da moral: uma polêmica. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
NIETZSCHE, Friedrich. Além do bem e do mal. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
NIETZSCHE, Friedrich. O anticristo. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
NIETZSCHE, Friedrich. Crepúsculo dos ídolos. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

Romper com Moralismos

Inspirado em Nietzsche, este ebook é um convite para rir do moralismo, abrir espaços de liberdade e compor a vida como obra de arte. Para libertar-se das culpas herdadas, de julgamentos que diminuem e regras que seguimos sem questionar...