A ditadura da ciência baseada em evidências

 
O culto das ciências empíricas, buscando defender o pensamento das "pseudociências", pode estar limitando a compreensão de mundo e até mesmo o entendimento do que seja ciência.

Estamos vivendo um momento de normatização do pensamento, que coloca a ciência empírica, de matriz positivista, como condição de critério exclusivo de verdade. Trata-se de uma forma de cientificismo que reduz o real ao mensurável e quantificável, deslegitimando outras formas de saber e operando como um regime de verdade e poder.

Nas últimas décadas, têm se valorizado um discurso da "ciência baseada em evidências" no lugar de um paradigma privilegiado, frequentemente exclusivo, de acesso à verdade. Esse discurso, amplamente difundido em campos como a medicina, a psicologia e a educação, estabelece critérios rígidos de validação do conhecimento, centrados na mensuração, replicabilidade e objetividade.

Embora esse movimento represente um avanço frente a práticas arbitrárias ou dogmáticas, ele também engendra um efeito colateral, reduzindo o campo do pensável. Ao assumir que apenas aquilo que pode ser empiricamente verificado constitui um conhecimento legítimo, outras formas de pensamento, sejam filosóficas, artísticas ou fenomenológicas, são marginalizadas ou desqualificadas.

Não se trata de uma evolução metodológica, mas da constituição de um regime epistemológico que, se apresentando como neutro e objetivo, se torna exclusivo e excludente, ditando os parâmetros de acesso ao real e limitando outras perspectivas e compreensões de mundo, produzindo efeitos normativos sobre o pensamento.

A Prática Baseada em Evidências (PBE) é um paradigma que utiliza as evidências científicas como validade de suas práticas, buscando aumentar a efetividade de intervenções. Têm sido amplamente aplicada na área da saúde, como, por exemplo, na enfermagem, fisioterapia, psicologia e nutrição.

A PBE tende a reduzir problemas complexos a variáveis mensuráveis. Na área da saúde, o paciente é lido como um “caso clínico”, a fenômenos testados em laboratórios. Porém, na psicologia, por exemplo, muitos dos fenômenos não podem ser testados em laboratórios, além disso, a experiência humana envolve fatores culturais, sociais e individuais, difíceis de medir.

Deste modo, nem todo conhecimento relevante entra na análise. Na prática clínica, pacientes reais são mais complexos que participantes de estudos empíricos. Inclusive, os resultados dos estudos empíricos nem sempre se aplicam a todas as pessoas, levantando a questão: “funciona para quem?”. Assim, nem tudo que é “evidência” é tão sólido quanto parece.

Uma forte crítica na área da saúde recai sobre a indústria farmacêutica, que influencia os estudos realizados, onde resultados negativos ou neutros por vezes não são publicados, podendo distorcer o corpo de evidências disponível. Estudos com resultados positivos têm maior chance de serem publicados, promovendo uma visão exageradamente otimista dos tratamentos.

Na psicologia, há críticas adicionais, como a dificuldade de medir emoções como a felicidade, a ansiedade ou a raiva; a dependência de autorrelato, que pode muitas vezes ser impreciso; e as intervenções que são difíceis de padronizar, pois a experiência da terapia não acontece de maneira igual para todos.

Essas críticas não significam que a ciência baseada em evidências é “ruim”, mas que ela precisa ser usada com cautela, atenção e criticidade. A crítica aqui não se dirige à ciência enquanto prática investigativa, mas ao cientificismo enquanto ideologia. Conforme argumentou Karl Popper (1975), a ciência é caracterizada por sua abertura à refutação e por seu caráter provisório, quando seus métodos são extrapolados para além de seus domínios próprios, ocorre uma distorção.

O cientificismo é a crença de que o método científico é o único meio válido de conhecimento, que todas as dimensões da realidade podem ser redutíveis a explicações empíricas e que as formas de saber que não se enquadram nesses critérios são inferiores ou inválidas.

Essa posição implica numa expansão indevida dos limites da ciência, convertendo seu método numa ontologia. O filósofo e sociólogo alemão, Jürgen Habermas, entende esse procedimento como uma “colonização do mundo da vida” por meio racionalidades instrumentais.

Um dos principais efeitos do cientificismo é a redução do real ao mensurável, implicando na exclusão de dimensões fundamentais da existência que não são acessadas por meio de métodos quantitativos. A fenomenologia surgiu precisamente como uma reação a essa tendência. Edmund Husserl denunciava o esquecimento do “mundo da vida”, da experiência pré-científica que fundamenta toda objetivação.

Para a perspectiva fenomenológica, a ciência positivista reduz o entendimento de mundo aos dados, retirando o estatuto epistemológico das experiências vivenciadas. O filósofo francês, Maurice Merleau-Ponty, complementa essa crítica, entendendo a percepção não como um erro a ser corrigido pela ciência, mas o próprio fundamento de toda significação.

Inclusive, a defesa da ciência baseada em evidências muitas vezes faz o uso impreciso do termo “pseudociência”. Esse conceito visava delimitar práticas que simulam o método científico sem atender a seus critérios mínimos. Porém, seu uso está sendo direcionado as abordagens epistemologicamente distintas, a campos de saber não experimentais e saberes filosóficos ou críticos.

Esse uso arbitrário da ideia de "pseudociência" transforma o conceito num dispositivo retórico de exclusão, evitando o debate em favor da rotulação e da exclusão de qualquer forma de saber, pensamento, reflexão ou crítica que não esteja adequada à linguagem e às determinações da ciência baseada em evidências.

Essa configuração discursiva atua como um regime de verdade e de poder. Segundo Michel Foucault, a verdade é um efeito de práticas discursivas e relações de poder. Não se trata de uma censura explícita, mas uma ditadura do pensamento, promovida por uma prática de normalização.

A hegemonia da ciência empírica não decorre apenas de sua eficácia, mas de sua institucionalização como discurso autorizado, que determina seus próprios critérios, exclui saberes considerados não válidos e internaliza as normas que regulam o que pode ser pensado e como pode ser pensado.

Friedrich Nietzsche problematizou a neutralidade do pensamento científico, para ele a verdade não é uma correspondência objetiva com o mundo, mas uma construção histórica, resultante de convenções linguísticas e necessidades vitais. A crença numa verdade puramente objetiva e desinteressada era por ele compreendida como uma expressão da vontade de estabilidade e controle.

A absolutização da perspectiva empírica de ciência produz efeitos que ultrapassam o campo epistemológico. Ela empobrece a experiência, reduzindo a vida em métricas e indicadores; reduz o sujeito e a complexidade da existência em variáveis empíricas; deslegitima o sentido, tratando questões existenciais como secundárias ou com pouca relevância; e restringe o imaginário, limitando o possível ao que é meramente verificável.

Esses efeitos são facilmente perceptíveis em áreas como a psicologia, onde abordagens baseadas exclusivamente em evidências tendem a marginalizar dimensões éticas, existenciais e simbólicas. A elevação da ciência empírica à condição de critério único de verdade configura uma forma contemporânea de limitação do pensamento. Sob a aparência de rigor, ela reduz o real e exclui de outras formas legítimas de compreensão. 

A crítica ao cientificismo não propõe a rejeição da ciência, mas sua revisão num campo mais amplo de produção de saber, envolvendo reconhecer a pluralidade epistemológica, restituir legitimidade a formas de conhecimento que não operam por base empírica, e compreender a ciência como prática situada e não como instância absoluta.

Como sugere Paul Feyerabend, a defesa de uma única metodologia pode se tornar, paradoxalmente, um obstáculo ao próprio desenvolvimento do conhecimento. Pensar é um ato que exige não apenas método, mas abertura e disponibilidade ao novo e distinto. Não se trata de abandonar a evidência, mas problematizar seus limites e sua atuação.

Referências:
FEYERABEND, Paul. Contra o método. São Paulo: Editora UNESP, 2011.
FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. São Paulo: Loyola, 2008.
HABERMAS, Jürgen. Teoria do agir comunicativo. Vol. 1. São Paulo: Martins Fontes, 1987.
HUSSERL, Edmund. A crise das ciências europeias e a fenomenologia transcendental. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2002.
LAKATOS, Imre. A lógica do descobrimento científico. São Paulo: Cultrix, 1978.
MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
NIETZSCHE, Friedrich. Sobre verdade e mentira no sentido extramoral. São Paulo: Hedra, 2007.
POPPER, Karl. A lógica da pesquisa científica. São Paulo: Cultrix, 1975.

Romper com Moralismos

Inspirado em Nietzsche, este ebook é um convite para rir do moralismo, abrir espaços de liberdade e compor a vida como obra de arte. Para libertar-se das culpas herdadas, de julgamentos que diminuem e regras que seguimos sem questionar...