Como nos tornamos quem somos?

A pergunta "quem somos?", que muitas vezes nos ocorre, pressupõe um "eu", uma "identidade", uma "personalidade", ou uma "essência", enfim, algo que revelaria uma espécie de "verdade" ou "fundamento" sobre nós mesmos, que não está muito perceptível, mas que pode ser encontrada ou descoberta.

Esse pensamento se torna presente desde Descartes até a psicologia moderna. Porém, Michel Foucault deslocou essa perspectiva para perguntar como nos tornamos. Para ele, não possuímos um núcleo original ou pessoal, mas somos configurados em meio a práticas sociais e históricas, relações de poder, discursos, instituições e saberes.

Foucault não perguntava "o que é o sujeito?", mas "como nos tornamos sujeito?", questionando como o sujeito foi produzido e se tornou objeto de saber. Em vez de procurar uma verdade do sujeito, ele investigou os processos que produzem os sujeitos, fazendo uma análise das condições históricas que tornam possíveis certos modos de subjetividade.

Nessa perspectiva, o sujeito não é origem, mas efeito, uma produção histórica. Esse pensamento contraria grande parte da tradição filosófica ocidental, que construiu a imagem de um sujeito universal, racional e consciente. Inclusive, em muitas correntes de psicologia, ainda prevalece a ideia de um “eu” profundo, capaz de conhecer a si mesmo.

Em vez de buscar uma essência humana universal, Foucault modificou a maneira de pensar o sujeito, investigando os processos históricos, os discursos e relações de poder que produzem seus modos de viver e se comportar. Para ele, o sujeito não possui uma origem fixa, mas se faz um campo de forças em constante transformação.

O que chamamos de “eu” é uma construção. Não existe um sujeito fora da história, o que temos são formas históricas de subjetivação. Para compreender como nos tornamos quem somos não basta olhar para dentro, é preciso observar as escolas, as famílias, as religiões, os meios de comunicação, os sistemas econômicos e as práticas cotidianas.

Somos produzidos em redes de poder que circulam, atravessando as relações sociais aparentemente banais, presente nos olhares, nos exames, nas classificações, nos diagnósticos, nas normas, nos registros e nos discursos científicos. O poder não apenas proíbe, mas também produz comportamentos, identidades e modos de existir.

Em "Vigiar e Punir", Foucault descreve o surgimento das sociedades disciplinares, entre o final do século XVIII e início do XIX, quando aparecem instituições como fábricas, escolas, prisões e quartéis, destinadas a produzir corpos úteis, dóceis e produtivos, organizando minuciosamente o tempo, o espaço, as atividades e os gestos dos indivíduos.

O sujeito moderno nasce disciplinado, aprendendo desde cedo a se sentar corretamente, a obedecer horários, a organizar seus desejos, a controlar os impulsos e a medir desempenhos. A disciplina não age apenas externamente, ela produz uma interioridade, um modo de se relacionar consigo mesmo, onde o indivíduo passa a vigiar e se controlar.

Segundo Foucault, os saberes científicos também produzem subjetividades e identidades. A psicologia, a psiquiatria, a medicina, a criminologia e a sexologia não apenas descrevem indivíduos, mas criam categorias através das quais as pessoas passam a se reconhecer e se identificar.

Quando alguém é definido como "normal", "anormal", "neurótico", "ansioso" "delinquente" ou "doente", essa classificação não oferece apenas uma descrição neutra da realidade, mas produz identidades, aloca a pessoa num lugar, numa representação e numa identidade específica.

Os discursos científicos classificam a vida como um objeto de saber, sendo por consequência um objeto de controle. As pessoas passam a interpretar suas próprias experiências por meio dessas categorias. O sujeito moderno aprendeu a narrar a si mesmo segundo linguagens que foram produzidas historicamente. Nossa identidade é discursivamente organizada.

Aquele sujeito empresarial, por exemplo, é levado a administrar a si mesmo como uma empresa, investindo em sua produtividade, desempenho, imagem, competências e eficiência. Sua vida se transforma em capital. As relações afetivas, o descanso, a alimentação, o lazer e até mesmo o sofrimento, passam a ser interpretados sob a lógica da performance.

O sujeito contemporâneo tornou-se um gestor de si, o controle foi deslocado para o interior do indivíduo. O sujeito explora a si mesmo em nome da autonomia, da alta performance e do sucesso, produzindo sofrimentos como uma ansiedade permanente, uma sensação de inadequação, exaustão e culpa por não corresponder às expectativas sociais.

Apesar de sermos produzidos por condições sociais e históricas, discursos científicos e relações de poder, Foucault não reduz o sujeito a um mero efeito passivo dessas estruturas. Para ele, onde há poder, há também resistência, de modo que a subjetividade nunca está completamente fechada, ela resiste.

Nos últimos anos de sua vida, Foucault passou a investigar as “práticas de si”, atividades através das quais os indivíduos podem transformar suas formas de vida. Inspirado na filosofia antiga, especialmente nos gregos, ele explorou a ideia do cuidado de si como um exercício ético e estético consigo mesmo.

A pergunta deixa então de ser apenas “como fomos produzidos?” e torna-se também “como podemos nos produzir de maneiras distintas?”. Se somos constituídos historicamente, também podemos experimentar outras formas de existência. Isso não significa escapar do poder, mas operar fissuras, deslocamentos, desvios e outras possibilidades de vida.

Nesse contexto, a ética não consiste em obedecer as normas universais, mas em inventar modos de existência. Fazer da vida uma obra em movimento, pois se fomos feitos, podemos nos refazer. Talvez a pergunta mais interessante e potente não seja “quem somos?”, mas “que outros modos de vida ainda podemos inventar?”.


Referências:
FOUCAULT, Michel. A hermenêutica do sujeito. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 1987.
REVEL, Judith. Michel Foucault: conceitos essenciais. São Carlos: Claraluz, 2005.

Romper com Moralismos

Este ebook é um convie para pensar criticamente as normas que nos diminuem e enfraquecem, utilizando a filosofia de Nietzsche para viver de maneira mais criativa, intensa e aberta, tomando o corpo como guia e a vida como obra de arte.