Foucault, psicologia e pedagogia

De alguns anos para cá, Foucault tem sido para mim um "divisor de águas", na psicologia e na pedagogia. Por quase dez anos atuei partindo de uma perspectiva "humanista" enquanto professor e terapeuta, valorizando a liberdade e a autonomia das pessoas como um princípio ético.

Depois de estudar algumas das obras de Foucault mais cuidadosamente, comecei a perceber práticas de normalização e disciplinarização presentes inclusive nas práticas humanistas. Fui percebendo que inclusive muitos psicólogos e professores atuam como agentes de normalização, legitimados pelo saber-poder.

O poder disciplinar atravessa nossas relações cotidianas de maneira quase imperceptível, nos tornando também agentes de normalização. Por vezes utilizamos práticas que parecem libertárias, mas que produzem corpos disciplinarizados e normalizadores.

A crítica que Foucault fez sobre a sociedade disciplinar, as instituições e as práticas de normalização são muito pertinentes, tanto na psicologia que discrimina o "normal" do "anormal", quanto na pedagogia que estabelece o "bom" e o "mau" aluno, condicionando os corpos a formas de ser, para aderirem a uma organização específica.

A questão não é apenas se estimulamos a liberdade ou a autonomia, mas o modo como nos relacionamos em nossa prática, as microfísicas do poder, o que tomamos por "adequado" ou "inadequado", as normativas que orientam nossa atuação e o modo como lidamos com a "inadequação" ou a "diferença".

Confesso que acreditei, por muito tempo, estar possibilitando a "emancipação" por meio do incentivo à autonomia e do potencial de escolha, enquanto professor ou como terapeuta, mas percebo hoje, que isso não é o suficiente. Há muitas outras questões que perpassam as práticas e as relações que merecem atenção.

O poder disciplinar é muito mais penetrante e menos visível, ele incide sobre nosso corpo e nossas atividades, sobre como nos colocamos no espaço, como utilizamos o nosso tempo, as atividades que nos dedicamos e inclusive as distrações. Hoje creio ser necessário um olhar mais atento sobre como reproduzimos as práticas de normalização em nossas relações.

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