Despsicologizando a vida

A psicologia moderna se estabeleceu como uma ciência da interioridade, ocupada em analisar e revelar um “verdadeiro eu” por trás dos comportamentos e das aparências, buscando explicar e descrever os sofrimentos, atitudes e condutas a partir de causas internas e psicológicas – traços, padrões, estruturas psíquicas – transformando a vida interior em objeto de análise, categorização e administração.

Nesse procedimento, o sujeito passou a ser psicologizado: reduzido a uma identidade e personalidade psicológica, interpretado a partir de teorias psicológicas, segundo normas e desvios, entendido a partir de uma estrutura de desenvolvimento e categorias psíquicas, tendo sua existência alocada num modelo que desconsidera as singularidades, as diferenças, a complexidade da vida e os atravessamentos sociais.

"(...) a psicologia se tornou, na cultura ocidental, a verdade do homem."
(Michel Foucault, em ‘História da Loucura’)

Despsicologizar a vida sugere romper com a normalização e o controle, retomando a existência como uma disposição ética e estética de si, encarando a vida não como algo a ser explicado, categorizado ou ajustado, mas vivenciado em suas incertezas e paradoxos. Em vez de olhar os dilemas e conflitos a partir de um enquadramento psicológico, trata-se de problematizar a lógica que os configura como patológicos e problemáticos.

Essa disposição nos solicita um deslocamento - deixar de lado a psicologização dos sujeitos para dar voz às suas diferenças, aos movimentos, afetos, contrariedades, deslocamentos e rompimentos. Ao invés de buscar identidades, descrições ou categorias, trata-se de afirmar a vida enquanto processo em transição permanente, como algo complexo e múltiplo, e não unitário e identificável.

A psicologia hegemônica atua como uma ferramenta de controle social, em sua prática de análise, descrição e classificação dos modos de ser, agindo como um dispositivo de normalização. Sofrimentos que emergem de contextos sociais, políticos, culturais e econômicos são frequentemente encarados como questões meramente psíquicas, individualizados e patologizados, desconsiderando sua emergência histórica e social.

Uma postura crítica em relação à patologização não contraria a escuta ou o cuidado, mas questiona o modo como a psicologia opera em favor de um controle sobre o corpo e os afetos, centralizando no sujeito a origem de suas dores e conflitos, tratando-o como um objeto psicológico a ser ajustado e direcionado de acordo com uma lógica de "tratamento" previamente estabelecida, moralmente aceita e socialmente "adequada".

Despsicologizar consiste em reduzir a ênfase excessiva na psicologia para explicar moções, dilemas, paradoxos, conflitos e angústias, reconhecendo que nenhum sofrimento ou questão da vida se reduz a causas exclusivamente psíquicas e individuais. Trata-se de compreender que, na angústia, na inquietação e no conflito, há algo que para além do indivíduo, mas que permeia o campo social, histórico e econômico.

Quando buscamos identificar ou explicar uma pessoa, não tomamos contato com suas experiências, mas a reduzimos a categorias, estruturas e descrições. Deste modo, perdemos o encontro com o que nela é distinto e não habitual, suprimindo sua singularidade. A análise organiza e representa a pessoa numa estrutura, abafando suas características singulares. Apesar disso, quando olhamos para seus movimentos e peculiaridades, nos aproximamos de suas diferenças e possibilitamos transformações.

"A representação tem apenas um centro, uma perspectiva única e fugidia e, portanto, uma falsa profundidade; ela mediatiza tudo, mas não mobiliza nem move nada. O movimento, por sua vez, implica uma pluralidade de pontos de vista, uma coexistência de momentos que deformam essencialmente a representação."
(Gilles Deleuze, em 'Diferença e repetição')

Podemos pensar uma psicologia que atue em favor da diferença: que não estruture identidades e identificações, mas que permita diferenciações; que não ajuste, mas experimente; que não normalize, mas afirme o que há de distinto em cada pessoa. Possibilitar um espaço de desanálise, para a diferenciação de si, possibilitando o contato com o há de virtualmente “novo”, que está em vias de se tornar.

Desacomodar a psicologia é um processo de libertá-la de seus modelos dominantes, de seus interesses morais e políticos, de seus alicerces positivistas, de seu papel de adaptação social e de sua cumplicidade com discursos que classificam, medem e controlam. Consiste em dar lugar a outras práticas, saberes e modos de cuidado que escapam das relações de poder, controle e condução.

Em vez de estabelecer um conhecimento sobre o sujeito, trata-se de abrir espaço para sua diferença e para o desconhecido, para suas rupturas e transgressões. Escutar as pessoas não como quem busca identificar o que são, mas como quem caminha e pensa junto possibilidades, para que se tornem aquilo que ainda não são. Fazer da terapia um lugar de liberdade e experimentação, não de adaptação ou correção.

Despsicologizar é recusar a domesticação das pessoas em todas as suas facetas. Compreender que a vida escapa a qualquer identidade, entendendo que o sujeito não precisa "encontrar seu verdadeiro eu" e que o sofrimento não deve ser aprisionado em diagnósticos. É abrir-se à complexidade do real, à fluidez e ao movimento de transformação da vida, às múltiplas formas de ser e habitar o mundo. Não se trata de colocar ordem no caos, mas reconhecer e valorizar o caos como potência criativa.

Para além da psicologia, este é um convite a outras maneiras de vida, de cuidado e de escuta: que não interpretem, mas ampliem perspectivas e modos de existência; que não expliquem, mas acompanhem os movimentos e transformações de cada um; que não consertem nem ajustem, mas que desfaçam as amarras e deixem a diferença florescer. Despsicologizar é, sobretudo, devolver ao sujeito sua capacidade de tornar-se outro — sem destino, sem essência, sem identidade fixa.


Referências:
DELEUZE, Gilles. Diferença e repetição. São Paulo: Graal, 2009.
FOUCAULT, Michel. História da Loucura: na Idade Clássica. São Paulo: Perspectiva, 2017.
GUARESCHI; HÜNING; FERREIRA [et al.]. Foucault e a Psicologia. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2014.
MACHADO, Roberto. Deleuze, a Arte e a Filosofia. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.

Romper com Moralismos

Inspirado em Nietzsche, este ebook é um convite para rir do moralismo, abrir espaços de liberdade e compor a vida como obra de arte. Para libertar-se das culpas herdadas, de julgamentos que diminuem e regras que seguimos sem questionar...