O pensamento de Gilles Deleuze e Félix Guattari propõe deslocamentos na tradição da filosofia ocidental. Em Mil Platôs (1980), eles apresentam a metáfora do rizoma como uma contraposição à estrutura arbórea de pensamento, sugerindo distintas maneiras de conceber a realidade, a vida, o conhecimento e a subjetividade.
A filosofia ocidental se estruturou, de maneira hegemônica, no modelo "arbóreo", buscando uma origem, uma raiz única de onde tudo deriva, como na árvore genealógica ou na estrutura piramidal, havendo sempre uma unidade que governa todas as ramificações. Uma das características do pensamento tradicional é ser arbóreo, hierárquico e centralizado, partindo sempre de fundamentos. Em contraste, o pensamento rizomático é múltiplo, descentralizado e aberto.
Do mesmo modo, as ciências humanas, por emergirem atreladas ao pensamento tradicional, também derivam grande parte da perspectiva arbórea, com sua lógica disciplinar e hierárquica, como currículos, classificações e categorizações. A Sociologia, a Antropologia, a Geografia, a Psicologia, a História, a Literatura e as Artes, todas elas possuem como referência a estrutura do pensamento arbóreo, organizado e hierárquico.
“Termo extraído da botânica, o rizoma é um tipo de raiz sem um caule central, que se espalha e se ramifica, podendo gerar segmentos equivalentes, igualmente capazes de se conectarem a qualquer outro.”
(João Cunha, em O Rizoma)
O rizoma não se organiza por uma lógica de filiação, continuidade ou dependência, mas por conexões e multiplicidades. Nele não há uma raiz única que determina sua continuidade, mas se estrutura por meio de ligações entre elementos distintos e heterogêneos que se distribuem por todas as direções. Trata-se de uma disposição de composições e rupturas, contrária à centralização.
Enquanto o pensamento arbóreo supõe uma base homogênea e um ponto de partida que legitima o restante, o pensamento rizomático afirma a diversidade, a multiplicidade e a imanência, estabelecendo uma estrutura em rede, que se expande e se reinventa sem a necessidade de uma origem fixa nem de um ponto de chegada, diferenciando-se dos modelos clássicos de racionalidade que buscam fundamentos universais, imutáveis e transcendentes.
O rizoma cresce por baixo da terra, é subterrâneo, disperso, sem hierarquia e sem centro, podendo ser rompido e, ainda assim, seguir suas conexões a partir de qualquer ponto. Ele não conhece começos nem fins, mas apenas meios, zonas de passagem, de variação e devir. Na perspectiva arbórea, tudo deve ter uma origem e fundamento, um ponto central de onde o restante deriva. Deleuze e Guattari perguntam: "-Por que insistir em raízes, quando a vida se move em configurações rizomáticas?"
“Um rizoma pode ser rompido, quebrado em um lugar qualquer, e também retoma segundo uma ou outra de suas linhas e segundo outras linhas.”
(Deleuze & Guattari, em Mil Platôs)
O pensamento rizomático não procura fundamentar, mas proliferar. Ele não busca responder "-De onde veio algo?”, mas propõe a questão “-Para onde isso pode ir?”. Essa perspectiva possibilita e acolhe conexões imprevistas e até mesmo incoerentes, habilitando relações com o estrangeiro e com o fora. Por meio desta perspectiva podemos conectar filosofia com botânica, política com desejo, infância com tecnologia, psicologia com arte, etc. Tudo pode se ligar a qualquer outra coisa.
Enquanto a árvore exige fidelidade a uma raiz única, o rizoma celebra a multiplicidade e a diversidade, se transformando em constantes aproximações e distanciamentos. Não há um tronco central direcionando o fluxo, mas linhas que se cruzam, se bifurcam, se encontram e se desviam.
O pensamento arbóreo supõe a estabilidade e a permanência, o rizomático aposta na errância, na incompletude e na impermanência. O primeiro organiza, o segundo experimenta e abre outras vias e caminhos, rompendo com as narrativas estruturantes, como a família que define, a profissão que determina o valor e a psicologia que enquadra a vida em diagnósticos.
"Um rizoma não começa nem conclui, ele se encontra sempre no meio, entre as coisas, inter-ser, intermezzo. A árvore é filiação, mas o rizoma é aliança, unicamente aliança. A árvore impõe o verbo 'ser', mas o rizoma tem como tecido a conjunção 'e... e... e...'."
(Deleuze & Guattari, em Mil Platôs)
Deleuze e Guattari apresentam seis características do rizoma: a conexão (qualquer ponto pode se ligar a qualquer outro), a heterogeneidade (as conexões não exigem uma homogeneidade), a multiplicidade (não há uma unidade central nem totalidade), a ruptura a-significante (pode ser cortado, se refazer e reconfigurar conexões), a cartografia (se faz num mapa aberto, conectável e modificável) e a decalcomania (não se reproduz por imitação).
Enquanto o modelo arbóreo valoriza currículos lineares e conteúdos hierarquizados na pedagogia, o rizomático inspira práticas interdisciplinares e experimentais, estabelecendo conexões entre distintos saberes. Na política, o rizoma propõe formas horizontais de organização, em contraste com os sistemas de poder centralizados. Pensar rizomaticamente na vida envolve acolher a imprevisibilidade e a multiplicidade das conexões que estabelecemos, resistindo às narrativas únicas sobre o que somos.
“Não somos nem arborescentes nem rizomáticos, mas as duas coisas ao mesmo tempo; não é questão de uma dicotomia, mas de uma diferença de regime”
(Deleuze & Guattari, em Mil Platôs)
O rizoma não propõe uma negação do pensamento arbóreo, mas desloca o olhar para uma mudança de perspectiva, direcionando para a proliferação, para aquilo que acontece nas margens. Deste modo, o rizoma não destrói o pensamento arbóreo, mas o descentraliza, abrindo espaço para outros modos de pensar e existir.
Não se trata de substituir um modelo por outro, mas perceber regimes de organização e seus efeitos. Trata-se de perceber quando a árvore captura, quando o rizoma abre, entendendo que ambos coexistem. Enfim, o pensamento rizomático nos convida a experimentar modos de pensar e viver que se expandem em direções inesperadas, sem raízes únicas, mas com múltiplas entradas e múltiplas saídas.
BARROS, MUNARI, ABRAMOWICZ. Educação, cultura e subjetividade: Deleuze e a Diferença. Revista Eletrônica de Educação. São Carlos (SP): Universidade Federal de São Carlos, Programa de Pós-Graduação em Educação, 2007.
DE CARVALHO DOS REIS E CUNHA, J. P. O rizoma: Conceito, definições e aplicações como metodologia de análise em Comunicação e Cultura. Rotura – Revista de Comunicação, Cultura e Artes, v. 3, n. 1, p. 118-131, 28 Fev. 2023.

