Há cerca de 25 anos, o cotidiano ainda era, em grande parte, experienciado em seu instante, onde as coisas aconteciam e nós acontecíamos com elas. Havia mediações como a televisão, o telefone, e o computador, mas elas tinham horários e lugares relativamente determinados.
A tecnologia era experienciada como um momento da vida, com tempos e limites perceptíveis. Hoje ela faz parte do ambiente, nos atravessando a todo tempo, quase como um segundo ar. Essa nova relação modificou nossos modos de viver, sentir, lembrar, desejar, amar, conversar, trabalhar e nos relacionar.
Uma das cenas que expressam essa mudança é quando vemos algo belo, raro ou tocante, e nossa primeira reação é sacar o celular para fotografar. Não fazemos isso para ver melhor ou para ter uma experiência mais profunda, mas registramos a experiência antes mesmo dela nos atravessar.
Trocamos a contemplação do momento por um gesto automatizado que diz a nós mesmos "já tenho isso, não preciso ver agora, posso ver depois". E esse "depois" nunca chega, pois a galeria de fotos vai enchendo e o olhar não retorna. O que era para preservar a experiência acaba matando ela.
Além disso, o ato de fotografar pelo celular nos gera um alívio, uma sensação que o momento foi "salvo" e arquivado, e, portanto, não precisa ser vivenciado. Esse alívio reduz a intensidade e a qualidade da experiência. Em vez de viver o momento, guardamos em nosso aparelho.
Mudanças na noção de tempo
Anteriormente nossa rotina era mais segmentada, com trabalho, casa, lazer, parentes, atualmente vivemos numa continuidade sem fim, um permanente fluxo de mensagens e tarefas. As coisas que faziam parte da vida começavam e terminavam. Os encontros, as festas, a música, o filme, tudo se encerrava num momento. O disco e a fita acabavam, hoje uma música salta para outra no streaming.
Os encontros se encerravam e ninguém ficava publicando fotos do encontro ou criando grupos para conversar no dia seguinte. O filme acabava, não tinha sugestão de outros filmes. Como efeito, isso nos gerou uma sensação de exaustão e atraso permanente, um cansaço difuso, uma espécie de burnout da existência, onde temos dificuldade de tirar um tempo para um descanso genuíno.
Nova atenção: do "foco" ao "feed"
Se antes tínhamos uma maior tolerância ao silêncio e ao tédio, hoje vivemos uma sobrecarga de notificações, feeds e recomendações. Estamos imersos a estímulos incessantes que competem a nossa atenção. Por conta disso, não demoramos nossa atenção ao que nos acontece, nada é muito absorvido, as coisas são como uma passagem.
A leitura é superficial e a conversa picotada, vivemos ansiosos pulando de uma atividade para outra, não experienciamos o tempo das coisas. Para conhecer algo era preciso um esforço, ir a bibliotecas, ler livros, artigos e jornais. Hoje temos um buscador instantâneo em nossas mãos, com resumos e tutoriais. Se tudo está disponível, não precisamos nos esforçar nem reter informações.
Da presença ao registro
Se antes a câmera fotográfica e a fotografia tinham a função de registrar memórias e recordar experiências vividas. O celular transformou essa função, ele acoplou a câmera ao desejo transitório de registro por impulso e regra, tornando a fotografia um reflexo condicionado.
Nas redes sociais, as pessoas se mostram e são medidas pelo que compartilham, somos incitados a compartilhar fotos, gerando um novo modo de viver,
onde deixamos de nos orientar pelo acontecimento para nos orientar pelo
conteúdo. O momento deixa de ser uma experiência e se torna uma postagem.
A experiência como prova
O celular não apenas registra, ele faz com que a experiência tenha valor quando é convertida em evidência, seja por meio de um post, um story ou um check-in. Deste modo, muitas de nossas atividades cotidianas passam a ser direcionadas por suas consequências nas redes sociais, fazemos algo se for gerar uma imagem ou narrativa que pode ser compartilhada.
Quando a vida se converte em prova, o sujeito passa a administrar uma espécie de curadoria de si mesmo. Não se trata mais apenas do vivenciamos, mas do que podemos mostrar sobre o que acontece em nossa vida. Nosso olhar está contaminado, onde toda cena passa a vista como um enquadramento possível de compartilhamento.
Atenção fragmentada
Nos últimos 25 anos, a atenção passou a se tornar um recurso econômico. As tecnologias se sofisticaram para capturar nossos micro-tempos com notificações, feeds, recomendações, novidades e promoções. Parece útil a tecnologia nos lembrando e oferecendo sugestões, mas isso nos gera um enorme custo existencial.
Perdemos o tempo de contemplação, de parada, de não ter de ver uma notificação, um tempo de parada. A contemplação demanda parada e demora, ela pede vazio, é contrária à técnica dominante que exige rapidez e preenche cada momento de nossa vida. Não é que a gente não tenha tempo, mas o nosso tempo foi reconfigurado e capturado pelas novas tecnologias.
Lembrar menos, arquivar mais
Antes, a memória era um recurso da vida, a lembrança nos permitia rever, escolher e reinterpretar. Agora, nosso celular promete uma memória permanente sem a nossa participação, tudo é arquivado e parece permanentemente disponível. Porém, essa disponibilidade é ilusória, pois o excesso vira ruído, a memória se torna depósito, não mais o sentido.
Lembrar não é apenas recuperar dados, mas ser afetado novamente, sob outro olhar, condição e momento. Sem a revisitação, acumulamos vivências sem repensar elas. Nosso celular vai se tornando um museu de memórias, e nossa vida um lugar de passagem, sem parada nem contemplação.
Proximidade sem encontro
A tecnologia modificou nossas relações, ficou mais fácil conversar e mais difícil estar próximo. O outro se tornou um ícone, uma bolha, um status. A reduziu o encontro e a possibilidade do imprevisível. Estamos com alguém e, ao mesmo tempo, com muitos outros. A presença vira uma negociação constante.
A tecnologia reconfigurou o que entendemos por amizade, intimidade, disponibilidade e atenção. As pessoas se tornaram "contatos", onde temos uma proximidade constante, porém com pouca, ou quase nenhuma profundidade.
Mais escolhas, menos liberdade
Com buscadores, IAs, mapas, câmeras, calendários e playlists pensamos ter mais controle em nossas mãos, mas, na prática, isso tudo nos gera uma sensação de dispersão e cansaço. É como ter infinitas portas e pouca energia para atravessar qualquer uma delas com profundidade.
A tecnologia facilita, mas também exige. Temos que responder, acompanhar, atualizar e otimizar a todo momento. Nossa vida se tornou uma gestão de notificações e solicitações. Vivemos como se estivéssemos prestes a perder algo. E quando nos cansamos, o corpo começa a pedir fugas como a distração, o consumo rápido e as anestesias leves.
O que a tecnologia fez com a nossa vida?
A tecnologia não apenas trouxe novas ferramentas, mas instaurou um novo regime de disposição, onde as experiências nos aparecem como algo a ser registrado, compartilhado e gerenciado. A vivência e a contemplação, que eram um modo de estar na vida, passaram a ser uma vida em extinção.
Apesar disso, há saídas, e não necessariamente "voltar atrás", mas talvez reaprender a olhar para o ambiente. Talvez, o gesto mais radical hoje seja o mais simples: viver e não ter de registrar, ou registrar apenas após experienciar, ou até mesmo ver e deixar passar, porque nossa vida e nossas experiências não se resumem em arquivos e registros.
O ponto é perceber como as novas tecnologias criam hábitos e modelos de vida, e como essas novas configurações nos afetam. Com isso, podemos pensar micro-práticas como contrapontos a esse modelo dominante.

