Há um modo de fazer filosofia em faculdades e centros de estudo, que privilegia a reprodução exata e fiel do pensamento de um filósofo. Um modelo que não nos ensina a criar, mas a reproduzir. Estudamos os filósofos e o que eles pensaram, e nossa tarefa se torna repetir o que disseram. Nos esforçamos para entender o que o autor quis dizer, e nosso pensar se torna um ato de fidelidade.
Esse modelo de filosofar gera uma postura submissa e pouco criativa, onde pegamos os conceitos e tentamos reproduzir exatamente como foram propostos, sem alteração, adaptação, ajuste ou atualização. Como se modificar algo no conceito fosse uma espécie de profanação. Como se a filosofia fosse uma herança sagrada e não uma caixa de ferramentas para ser usada.
Há outra característica ainda mais paralisante, quando alguém vai comentar sobre um autor, parece que é preciso saber tudo deste autor, tudo o que ele escreveu, suas obras, todos os seus comentadores, todas as suas fases de vida, inclusive os termos no idioma original. Não basta pegar o que nos interessa e usar para compor ideias. Parece que se você não domina o todo, não pode dizer nada.
Como resultado a esse modelo de filosofar e aprender filosofia, não compomos pensamentos, apenas repetimos ideias. Não criamos nem misturamos, mas nos tornamos meros reprodutores de um saber já instituído, como se não tivéssemos autoridade para pensar por conta própria, criar por conta própria e arriscar por conta própria.
Penso que esse modelo de estudo enfraquece o pensamento e a vida. Ele não nos habilita à criação, nem o uso dos pensamentos, colocando a filosofia num lugar de erudição imóvel, onde se estuda muito e se faz pouco. Há diversos espaços "eruditos" que não estão fazendo nada, não transformam o modo de pensar e agir na realidade, não produzem um deslocamento, apenas confirmam o que já foi dito.
A filosofia, para mim, não é mera leitura ou conhecimento, mas uma ação prática que serve para movimentar o pensamento e a vida. Uma disposição que altera, desconfigura e reestrutura. Não vejo como um conjunto de ideias que repetimos para mostrar que lemos e entendemos corretamente. Se o pensamento não mexe em nada, ele é apenas um artifício de validação.
Quando escutamos uma música e ela nos toca, não precisamos conhecer a discografia completa de um compositor para experienciar uma modificação sensorial e perceptiva por meio da escuta. Apenas escutamos a música e ela nos modifica, altera algo em nós. Ninguém precisa ouvir todos os discos do Hermeto Pascoal para ser tocado por um disco específico.
E por que isso não pode valer na filosofia? Por que precisamos ler “tudo” de um filósofo, ao invés de usar alguns de seus conceitos e conectar com outros pensamentos? Por que o uso livre de um conceito é visto como "falta de rigor"? A liberdade criativa de usar filosofia é uma liberdade poética. O conceito não é uma relíquia, mas instrumento para produzir alguma coisa.
Essa preocupação paranoica em entender "o que o autor disse" e dizer exatamente do mesmo modo que "ele disse", faz da filosofia algo rígido e paralisante. Como se a verdade fosse o que ele disse e não algo que se movimenta em nós, uma produção temporária, situada, que se transforma.
A questão que me interessa não é “o que a coisa é?” (sua suposta essência ou verdade), mas “o que ela faz?” e “o que ela transforma?”. Prefiro usar o conhecimento como uma prática de vida. Pensar não para encontrar respostas, muito menos para repetir, mas para abrir caminhos, deslocar perspectivas e transformar o pensamento e a vida.
Muitos pesquisadores fazem perguntas que se parecem um culto: “o que é a fenomenologia em Heidegger?”, “e a indústria cultural de Adorno?”. O formato da pergunta já denuncia a prisão, busca-se definir ao invés de utilizar. Seu objetivo é a exatidão conceitual, não a potência do pensamento. Enquanto isso, o pensamento, que deveria atravessar e movimentar, fica girando em torno de si mesmo, como se a filosofia fosse um museu de conceitos.
Prefiro usar o pensamento para movimentar, para transformar a vida. Não me interessa tanto "o que Nietzsche quis dizer", mas como seus pensamentos, aforismos e ideias me movimentam. O que me interessa é o modo como o pensamento age em mim, o ele que produz, quais perspectivas abre, o que modifica meu modo de ver e pensar, quais modos de vida desmonta e quais possibilidades libera.
A busca por repetir os conceitos "exatos" gera uma relação hierárquica, uma separação entre os "especialistas" e os "incultos". Aos primeiros é permitido falar sobre o assunto e aos incultos só resta se calarem para "aprender o correto". Então o que pensamos não tem valor? Por que o pensamento só vira “pensamento” quando está referendado por uma autoridade e apresentado com fidelidade?
Se pegarmos o que nos interessa num autor, adaptando, ajustando e transformando, fazemos da filosofia uma prática, uma ação e não apenas comentário. Fazer da filosofia criação e mistura, como se faz música. Uma filosofia que não se contenta em dizer o que foi dito, mas se compromete com o que pode ser feito daquilo que disseram, partindo daqui e do agora.
Enfim, o problema não é estudar autores, mas calar e se colocar de maneira submissa, repetindo para ser aceito, reproduzindo para ter permissão, dominando “tudo” para não ser desautorizado a comentar. O preço dessa postura é alto, faz o pensamento perder potência, a vida não se movimentar, e a filosofia vira uma atividade meramente de vitrine.

