E se o que você sente não for apenas seu, mas o modo como o mundo te ensinou a viver?
Vamos pensar o capitalismo não apenas como modelo econômico, mas como um regime de produção de vida: ritmos, valores, linguagem, desejos, formas de reconhecimento e receios. Este modelo de vida direcionado para a produção e o consumo organiza o ambiente onde as emoções emergem, se estruturam e operam.
Na lógica capitalista, o tempo se converte em aceleração, urgência e exaustão. Nossa atenção passa a ser orientada pela gestão de prazos e pela fragmentação, produzindo uma pressa difusa e uma dificuldade crescente de repouso real. A ansiedade, nesse contexto, deixa de ser apenas uma experiência pontual e se torna uma tensão contínua, quase um pano de fundo da experiência.
Esse processo não se expressa apenas como cansaço, mas como uma forma de funcionamento em que o corpo e a mente operam em “modo tarefa” por longos períodos. Uma de suas consequências mais marcantes é a dificuldade de sustentar a própria existência sem ter que produzir, otimizar ou justificar o tempo.
No regime capitalista, o desejo é capturado, deixa de operar como uma força inventiva e passa a funcionar enquanto demanda guiada. A pergunta deixa de ser “o que me move?” para “o que me falta?”. A falta torna-se motor de consumo, e o desejo passa do querer para o consumir, orientado por tendências, métricas, status e microvalidações. O resultado costuma ser uma satisfação breve, de retorno rápido, seguida por uma sensação recorrente de vazio.
Até mesmo o “eu” é afetado por essa lógica, nossa identidade passa a ser entendida como projeto e como marca. O sujeito é convocado a se ver como um empreendimento (currículo, performance e imagem). A vida íntima se converte em portfólio, e as experiências passam a funcionar como capital simbólico. A autopercepção, por sua vez, se organiza em torno de avaliações constantes, comparação, ranking, suficiência, gerando uma vergonha difusa e autocobrança crônica.
A precariedade e a competição constantes tendem a converter problemas coletivos em falhas individuais, gerando uma sensação de culpa, inadequação e receio social. Pensamentos como “não fiz o suficiente”, “não sou o suficiente” ou “não vou conseguir” alimentam uma hipervigilância de si, em que o mundo passa a ser percebido como sobrevivência contínua, e não como um espaço para viver. A sensação resultante é a de estar sempre em dívida.
Nossa atenção, no capitalismo, é um recurso econômico simultaneamente capturado e disperso, disputado por cliques, estímulos e notificações. Um dos efeitos mais perceptíveis é a dificuldade de sustentar a profundidade, seja na leitura, no pensamento ou no silêncio. Até mesmo o tédio, que poderia servir como incubadora de criação, passa a ser evitado, gerando inquietação diante da ausência de estímulos e uma espécie de “abstinência” diante do novo.
Neste cenário, as relações interpessoais são atravessadas por cálculos de valor, utilidade e custo-benefício, numa lógica de troca e desempenho. O networking substitui o encontro, assim como a visibilidade substitui a intimidade. O cuidado, inclusive consigo mesmo, assume a forma de um "serviço", como uma planilha afetiva ou uma gestão da produtividade emocional. Com isso, temos a experiência de solidão mesmo em meio à interação, acompanhada de vínculos frágeis.
Para manter a maquinaria social em funcionamento, o sofrimento é medicalizado e despolitizado. Um mal-estar que possui dimensões estruturais, envolvendo ritmo de vida e precarização, costuma ser traduzido como transtorno individual. A saída comum passa a ser o ajuste do sujeito ao sistema, por meio da gestão de sintomas, e não a transformação das condições materiais, levando a pessoa a buscar uma melhora para suportar essa vida, e não para viver de outro modo.
Esse processo se dá em três camadas: material, simbólica e microafetiva. No plano material, aparecem questões como tempo, trabalho, dívida, custo de vida e insegurança. No plano simbólico, operam ideais como sucesso e mérito, além de linguagens centradas em performance, eficiência e comparação. Já no nível microafetivo, manifestam-se ansiedade, culpa, irritação, apatia e diversas formas de compulsão.
Em meio a essas condições, é possível pensar algumas linhas de fuga, para a reapropriação do tempo, por meio de momentos de “inutilidade” deliberada, um ócio que não funciona como descanso para produzir, mas como modo de existir; uma higiene da atenção, reduzindo pontos de captura como notificações e feeds, para criar ilhas de profundidade; e uma retomada do desejo, reativando vontades que não estejam pautadas pela vitrine, mas pela arte, pelo corpo, pelo estudo e por encontros sem finalidade.
Por fim, trata-se de sustentar vínculos não mercantis, baseados em reciprocidade sem métrica e em cuidado sem performance. Isso implica repolitizar o mal-estar, reconhecendo o que nele é estrutural, reduzindo a culpa individual e abrindo espaço para transformações na vida prática. Nesse sentido, algumas perguntas podem funcionar como um diagnóstico existencial (não clínico), ajudando a perceber como o capitalismo se internaliza em nós:
Em que momentos me trato como “projeto”, e não como vida? O que, em mim, opera por medo de perder posição? Onde minha rotina produz um excesso de urgência sem necessidade real? Quais de meus desejos resultam de contágio social? Quando confundo valor com visibilidade?

