História da Loucura em Michel Foucault

O livro História da Loucura de Michel Foucault, foi uma grande ruptura no modo como eu pensava a psicologia. Tomei contato com ele quando trabalhava como professor acadêmico no curso de Psicologia, por volta de 2020. Havia me graduado há quinze anos e apesar de ter várias críticas à psicologia tradicional e hegemônica, nunca tinha tido uma visão tão bem descrita sobre a produção social desse saber.

Desde muito jovem me interessava pela história da filosofia, da psicologia, da psicologia, da música e das artes, mas nunca tinha pensado numa história da loucura. Foucault foi muito ousado ao olhar a partir de outro prisma e escrever sobre esse tema. A maioria das pessoas que estudam psicologia pensam que a loucura sempre existiu, que ela não tem história, e que a psicologia foi apenas aprimorando seu entendimento sobre ela.

Foucault contrariou o discurso comum ao pensar a loucura como uma experiência muito anterior à psicologia, percebida por outros saberes antes de chegar na psicologia, que nem sempre foi uma questão médica ou entendida como um problema que necessita de tratamento. Segundo ele, a loucura não é um fato natural, mas uma produção histórica marcada por práticas sociais e discursivas.

As principais questões que comenta em seu livro são: como se transformaram historicamente os entendimentos e as disposições para com a loucura? Como a loucura se tornou um objeto de saber médico, num progressivo domínio da razão sobre a loucura? Quais foram as mudanças de perspectiva, de olhar, de disposição, de sensibilidade e de práticas para com o "louco" na história do ocidente?

Evidenciando a condição histórica dos saberes e das práticas, Foucault entendia que os saberes são resultantes de um conjunto de configurações históricas. Seu método arqueológico buscava escavar as condições de enunciação dos discursos e de sua eleição como verdadeiro ou falso, contrariando a ideia de uma racionalidade global e unitária, buscando as condições de possibilidade históricas dos saberes e das práticas.

Neste sentido, a "loucura" não é entendida como uma realidade natural simplesmente descoberta pela medicina. Ela foi historicamente constituída por práticas sociais, morais, jurídicas, econômicas e médicas. A medicina demorou para se apropriar da loucura, antes dela foi expressa pelas artes, pela filosofia e pelo direito. Inclusive, a noção de “doença mental” é uma invenção recente, apenas no século XIX se iniciou uma terapêutica para a loucura.

Sua análise priorizou três grandes momentos da loucura no ocidente:

indiferenciação (século XV e XVI), quando não havia distinção entre loucura e saber, o louco era um estranho que peregrinava livremente. A segregação (século XVII e XVIII), quando a loucura é excluída da razão, enclausurada, mas ainda não muito bem percebida. E, a medicalização (século XIX e XX), quando a loucura passa a ser analisada e entendida como “doença mental”, se torna objeto médico e de tratamento.

O livro de Foucault se inicia no final da Idade Média e início do Renascimento, quando a loucura era percebida como uma experiência diferenciada, um saber esotérico que percorre estranhos caminhos. Havia lugares de encontro dos loucos, uma prática social e hospitalidade para com a loucura, sendo expressa pela literatura, artes pictóricas e filosofia.

Neste período, o louco circulava livremente. Alguns deles eram colocados em barcos que navegavam pelos rios da Europa. Não havia uma diferenciação entre loucura e razão, ou entre loucura e saber, a loucura era uma forma de saber distinto e trágico.

“Há na França, no começo do século XVII, loucos célebres com os quais o público, e o público culto, gosta de se divertir; alguns como Bluet d’Arbère escrevem livros que são publicados e lidos como obras de loucura. Até cerca de 1650, a cultura ocidental foi estranhamente hospitaleira a estas formas de experiência.”
(Foucault, em Doença mental e psicologia)

Em meados do século XVII o cenário muda, com René Descartes e a defesa da razão como único meio de alcançar a verdade, a loucura passa a ser associada ao erro, ao sonho e ao engano. O louco é entendido como aquele que não possui razão, seu discurso é então excluído dos saberes. Ocorre uma importante cisão entre razão e desrazão, onde a loucura passa a ser entendida como não-razão.

Nesta mesma época, acontece o enclausuramento dos loucos. O Hospital Geral de Paris é fundado em 1656, não como uma instituição médica, mas como uma entidade jurídica, instância de ordem que decide, julga e executa, com intuitos políticos, sociais, religiosos, econômicos e morais. Esses hospitais se espalham por toda a Europa, especialmente na França, Alemanha e Inglaterra. A loucura é segregada, excluída da razão, tendo sua voz silenciada.

“Se o louco aparecia de modo familiar na paisagem humana da Idade Média, era como que vindo de um outro mundo. Agora, ele vai destacar-se sobre um fundo formado por um problema de "polícia", referente à ordem dos indivíduos na cidade.”
(Foucault, em História da Loucura)

Somente no século XVIII começa a aparecer um olhar médico para a loucura, sendo percebida como uma doença, onde suas causas são entendidas como físicas. O doente era entendido como portador de um mal moral, e o médico deveria suprimir esse mal para alcançar sua cura.

As doenças começam a serem lidas como espécies, há um início das categorias patológicas, de modo muito pouco criterioso, as perturbações são definidas como “vapores”, com relações físicas de aumento e diminuição. Há também a ideia de lunatismo, variações de humor conforme as variações da Lua.

Por conta do ideal Iluminista, o enclausuramento passa a ser mal visto, deixando de ser uma prática comum, substituído pelos asilos terapêuticos, entre o final do século XVIII e início do século o XIX. A loucura passa a ser entendida como “alienação mental”. Na França, Pinel liberta os loucos em 1794, e defende sua reeducação mediante um controle social e moral. O asilo se torna um lugar de vigilância e o trabalho é utilizado como meio de cura.

“O silêncio, o reconhecimento da própria doença e o submetimento ao juízo moral e científico da autoridade eram apresentados como meios de cura. Porém, para além dessas diferenças, as táticas adotadas em ambas as instituições - desafios, ameaças, humilhações, castigos, privação de alimentos - constituíam uma estratégia de infantilização e culpabilização do louco.”
(Edgardo Castro, em Introdução à Foucault) 

Somente no século XIX, a loucura começa a ser lida como “doença mental”. Após sua ruptura moral e social, ela se torna um objeto de estudo científico da medicina. Entendida como doença, ela necessita tratamento. O médico passa ser a figura de saber e poder sobre o louco. A loucura que antes perdeu sua razão, agora perdeu sua voz. Daqui em diante quem fala sobre a loucura são apenas os médicos e os especialistas “psi”.

Fazendo uma síntese, no Renascimento há uma circulação livre da loucura, representada pelas naus, navegando e transitando em liberdade. No início da modernidade a loucura passa a ser percebida como desrazão e ocorre a reclusão de loucos. No final do século XIX surge o asilo psiquiátrico, que se torna o local dos alienados mentais. Somente na atualidade, os portadores de transtornos mentais são submetidos a um tratamento psicológico e psiquiátrico.

“A psicopatologia do século XIX (e talvez ainda a nossa) acredita situar-se e tomar suas medidas com referência num homo natura ou num homem normal considerado como dado anterior a toda experiência da doença. Na verdade, esse homem normal é uma criação.”
(Foucault, em História da Loucura)

Com essa análise histórica, percebemos que a psicologia emerge como ciência apenas no final do século XIX, inserida na ordem do discurso moderno. Alinhada a um projeto normativo, que visa homogeneizar, se distanciando de tudo o que é exterior (diferença ou anormalidade). A loucura passa a ser percebida como um objeto de estudo científico, que por meio de testes e avaliações diagnósticas sustentam o discurso de cientificidade para não transparecer seu controle moral.

Em sua obra, Foucault demonstra que a psicologia e a psiquiatria não nasceram como ciências neutras, mas como dispositivos de poder para classificar, normalizar e controlar comportamentos desviantes. A divisão entre "normal e anormal" e "razão e loucura" serve para legitimar intervenções sobre indivíduos e grupos. E a pretensa "humanização" do tratamento psiquiátrico mascara formas de sujeição moral e disciplinar.


Referências:
CASTRO, Edgardo. Introdução a Foucault. Belo Horizonte: Autentica Editora, 2014.
DÍAZ, Esther. A filosofia de Michel Foucault. São Paulo: Editora Unesp, 2012.
FOUCAULT, Michel. Doença Mental e Psicologia. Rio de Janeiro: Tempo Universitário, 2000.
FOUCAULT, Michel. História da Loucura: na Idade Clássica. São Paulo: Perspectiva, 2017.
MACHADO, Roberto. Foucault, a Ciência e o Saber. Rio de Janeiro: Zahar, 2006.

Romper com Moralismos

Este ebook é um convie para pensar criticamente as normas que nos diminuem e enfraquecem, utilizando a filosofia de Nietzsche para viver de maneira mais criativa, intensa e aberta, tomando o corpo como guia e a vida como obra de arte.