Ressentimento e transformação da dor

Transmutar a dor em potência de vida é uma característica do pensamento de Nietzcshe, concebendo o sofrimento como uma força plástica que pode ser transformada em algo distinto, novo e até mesmo criativo.

Seu pensamento não busca nem propõe uma "cura" no sentido terapêutico convencional, mas uma transmutação, fazendo da dor uma matéria para uma vida mais intensa e afirmativa.

Para Nietzsche, o ressentido é aquele que não consegue digerir suas experiências ruins, nem transformar a dor em algo novo, ficando preso ao sofrimento vivido, à mesma ofensa sofrida.

O ressentimento não é apenas uma mágoa ou tristeza passageira, mas uma forma reativa de vida, onde a experiência ruim não é digerida e passa a organizar a identidade da pessoa.

A memória é um elemento central dessa condição. Em vez de usar a memória como lembrança, ela se torna um aprisionamento e um veneno, mantendo o passado continuamente presente.

O ressentido revive constantemente as feridas antigas, ruminando o que lhe aconteceu, perdendo a capacidade de deixar passar, de seguir adiante, compor outros modos de vida, esquecer e abrir espaço ao novo.

Com o tempo, essa lembrança se transforma em má consciência, culpa e moralização da dor. A impossibilidade de agir diretamente contra o que causou a dor leva a uma inversão de forças, a agressividade que era direcionada ao outro se volta depois contra si mesmo.

Essa incapacidade de exteriorizar a agressividade faz com que ela retorne para si, de modo que a má consciência se torna uma força que retorna para dentro e se converte em culpa, julgamento e autopunição, reforçando uma postura moralizante diante de si e dos outros, alimentando um ciclo de vigilância interna, culpa e repetição do passado, em vez de produzir transformação.

Contrapondo essa postura ressentida, o esquecimento aparece em Nietzsche como uma força plástica, ativa e vital, capaz de transformar um momento doloroso em outra condição. Para ele, esquecer não se trata de uma falha ou desimportância, mas deixar passar, digerir as experiências e não permitir que a vida fique aprisionada na repetição de algo ruim.

O forte, segundo Nietzsche, não nega o sofrimento, mas não permite que uma ferida se transforme em algo maior, que se torne sua identidade. Ele se movimenta e age sem precisar anunciar sua dor, nem dizer o quanto está dolorido, ele simplesmente não alimenta o que o enfraquece, redirecionando seu olhar.

"Não quero travar uma guerra contra o feio. Não quero reclamar, não quero nem mesmo reclamar dos que reclamam. Desviar o olhar deles, será minha única negação!"
(Nietzsche, em A Gaia Ciência)

A moral forte é afirmativa, ativa e criadora. Para eles, o “bom” emerge da própria potência, da afirmação e expansão da vida. Já a moral dos fracos é reativa, depende do outro para se definir, reagindo ao que lhe acontece.

A moral fraca é reativa, busca apoio em regras universais e no rebanho, elenca culpados, avaliando a partir de valores de um grupo, enquanto a moral forte legisla sobre si mesma e parte de sua avaliação da vida. O fraco culpabiliza e busca uma vingança imaginária, em vez de produzir novos valores ou experimentar novos modos de vida.

Nietzsche propõe o "amor fati" como uma disposição de querer a vida tal como ela é, sem ter de dividir ela em partes boas e ruins, de modo moralizante. A grande saúde é uma saúde que se recompõe, se reorganiza e se fortalece a partir do que a afeta, inclusive a partir da dor.

A transvaloração propõe uma mudança de leitura, em vez de perguntar "-Por que isso aconteceu comigo?" ou "-Por que isso é injusto?", a questão passa a ser "-O que isso movimenta?" e "-O que pode ser criado a partir disso?"

O sofrimento deixa de ser visto como problema a ser eliminado e passa a ser matéria de composição estética e existencial. Esse entendimento demanda uma mudança de perspectiva, de sair da reação e do diagnóstico para a criação e a afirmação.

Há um trecho de Ecce Homo em que Nietzsche afirma que a doença o libertou lentamente, o fez esquecer, desacelerar e descobrir novas disposições, sem perder capacidades, ao contrário, ganhando outras. Deste modo, o sofrimento pode reorganizar hábitos, abrir espaço para novas formas de viver.

"A doença libertou-me lentamente: poupou-me qualquer ruptura, qualquer passo violento e chocante. Não perdi então nenhuma benevolência, ganhei muitas mais. A doença deu-me igualmente o direito a uma completa inversão de meus hábitos; ela permitiu, ela me ordenou esquecer; ela me presenteou com a obrigação à quietude, ao ócio, ao esperar e ser paciente...(...) — Aquele Eu mais ao fundo, quase enterrado, quase emudecido sob a constante imposição de ouvir outros Eus, despertou lentamente, tímida e hesitantemente — mas enfim voltou a falar. Nunca fui tão feliz comigo mesmo como nas épocas mais doentias e dolorosas de minha vida."
(Nietzsche, em 'Ecce Homo')

Tony Iommi, guitarrista do Black Sabbath, perdeu parte dos dedos da mão esquerda em um acidente de trabalho e, ao adaptar sua forma de tocar e as cordas da guitarra, contribuiu para a criação da sonoridade característica da banda e do heavy metal. A perda pode ser transfigurada em invenção e não necessariamente em problema.

Nossa cultura tende a evitar a dor, medicalizar o sofrimento e impedir sua elaboração criativa. Em contraposição, a proposta nietzschiana nos sugere compor com a dor, incorporar a instabilidade e fazer da própria vida uma prática de criação contínua.

A transvaloração dos valores nos permite transformar o que antes era vivido como peso, culpa ou ofensa em potência de vida e afirmação da existência.

Romper com Moralismos

Este ebook é um convie para pensar criticamente as normas que nos diminuem e enfraquecem, utilizando a filosofia de Nietzsche para viver de maneira mais criativa, intensa e aberta, tomando o corpo como guia e a vida como obra de arte.