A terapia filosófica é uma abordagem que utiliza a filosofia como ferramenta terapêutica. Em vez de tratar questões existenciais por meio de diagnósticos clínicos, trabalha com elementos como a reflexão, o diálogo e a contemplação, proporcionando uma transformação na disposição de pensar por si, reavaliar valores, ampliar possibilidades de vida e experimentar outros modos de existir.
Seu objetivo não é “curar doenças” ou ajustar comportamentos a um padrão de normalidade, mas abrir espaço para explorar e transformar nossas questões e dilemas, acolhendo a singularidade e as diferenças de cada um, bem como questões existenciais e afetivas sem a um olhar patologizante, repensando sobre nossas atividades, relações e maneiras de se inserir no mundo.
Trata-se de uma aplicação prática e ética da filosofia, que deixa o campo acadêmico para se tornar uma ferramenta para a vida concreta. O uso da filosofia como prática terapêutica tem uma história antiga, que remonta à ideia socrática de filosofia como cuidado de si, sendo revisitada e reinterpretada por diversos pensadores ao longo do século XX.
O que esperar dessa terapia?
A melhora não é um “ajuste comportamental” nem uma receita de como “viver bem”, mas uma maior clareza sobre os próprios modos de pensar e agir, uma ampliação de perspectivas e maneiras de lidar com dilemas existenciais, possibilitando que se sinta mais capaz de acolher suas questões e encontrar caminhos mais salutares para reagir a elas, proporcionando uma sensação de segurança e transformação de disposição ao longo do processo.
Quanto tempo leva uma melhora?
Não há um período estabelecido. Diferente de terapias com protocolos estruturados, a filosofia clínica marca seu tempo pelo processo de reflexão e transformação de sentido do sujeito.
Para a maioria das pessoas, um período de 12 a 18 meses de sessões regulares geram mudanças subjetivas bem perceptíveis. Porém, esse “tempo de melhora” não é uma linha reta previsível, mas uma jornada que acompanha a intensidade do trabalho reflexivo e o modo como cada pessoa se relaciona com seus próprios significados.
A terapia filosófica é, portanto, uma forma de caminhada reflexiva que não promete soluções prontas nem resoluções automáticas; ela convida cada pessoa a repensar suas experiências e ampliar caminhos possíveis, como se fosse uma forma de escrever uma vida com mais profundidade e propriedade sem normalizar, considerando sua singularidade e diferenças.
Objetivos da terapia filosófica
A terapia filosófica não pretende “tratar sintomas”, mas repensar sobre o que nos gera sofrimento, confusão ou empobrecimento da experiência. Ela busca rever a vida por meio do pensamento, não ajustar a pessoa a um modelo de vida.
- Repensar o pensamento: identificar ideias rígidas, narrativas automáticas, valores herdados que passaram a funcionar como jaulas invisíveis.
- Rever caminhos de vida: tomar contato com o que nos move, o que paralisa, o que drena e o que a esgota, observando o sofrimento não como um erro, mas como um sinal.
- Ampliar o campo do possível: ampliar o campo de escolhas possíveis, menos repetição automática e mais experimentação consciente.
- Singularizar sem normalizar: não há um ideal de saúde, de equilíbrio ou felicidade, mas compreender e encontrar modos de vida que nos fazem bem, mesmo que sejam estranhos ou fora do padrão.
- Mudar a relação com o sofrimento: o sofrimento deixa de ser algo a ser evitado ou eliminado e passa a ser algo a ser lido, acolhido, compreendido e, quando possível, transformado.
Como trabalho?
- Enfoque não adaptativo: partindo de uma crítica à psicologia tradicional e às lógicas de adaptação, desempenho e normalização. O problema nunca é meramente “interno ao indivíduo”, mas emerge de modos de vida, discursos e exigências sociais.
- Influências filosóficas: Nietzsche com a análise dos valores que enfraquecem, culpabilizam ou ressentem, Foucault com a leitura das capturas, normas, dispositivos e formas de sujeição, e Deleuze que aposta na experimentação, nos desvios e nos modos de existência singulares
- Eixos e estruturas: não “analiso problemas”, mas auxilio a organizar o pensamento da pessoa em eixos: como se relaciona com o tempo, com as relações, com os espaços, com o desejo, com o trabalho, com o cansaço, com o sofrimento, com os prazeres, etc. Isso cria mapas, não diagnósticos.
- Da escuta à ação refletida: não trabalho escuta meramente interpretativa, mas com uma escuta atenta e cuidadosa, para uma ação refletiva sobre si, onde a filosofia é utilizada como prática cotidiana, não contemplação abstrata.
- Laboratório existencial: o encontro terapêutico funciona como um laboratório de revisão de vida: para pensar tanto sobre o que está se esgotando? o que pede fim? e o que ainda pode nascer, mesmo pequeno? Não ofereço promessas grandiosas, as mudanças reais costumam ser discretas, mas estruturais.
O que a terapia filosófica oferece?
Uma maior mais clareza sobre si, menos culpa por não se encaixar, maior coerência entre pensamento e vida, redução do esgotamento produzido por exigências externas, fortalecimento de um modo de existir próprio, ainda que imperfeito, onde a vida deixa de parecer um erro constante a ser corrigido.
Não oferece respostas prontas, "cura" ou "normalização", mas algo mais raro: condições para que a pessoa sustente as próprias perguntas sem se perder nelas. Isso não resolve de imediato a vida, mas geralmente impede que ela continue sendo vivida contra si mesma.

