Cansaço de um modelo de vida

O cansaço que experienciamos na atualidade não é mais aquele desgaste físico que se amenizava com uma boa noite de sono. Esse cansaço contemporâneo não resulta do trabalho duro ou da privação, mas do excesso de atividades, tarefas e estímulos, de uma positividade e hiperatividade sem pausa. Para Byung-Chul Han, esse cansaço constante, que permanece mesmo após dias de "descanso", não é um problema individual, mas o reflexo de um modelo de vida atual, da sociedade do desempenho.

Diferente da sociedade que funcionava por meio da proibição e da negatividade (não pode, dever e obediência), a sociedade do desempenho é regida pelo imperativo positivo do "Sim, você pode". Não há mais um patrão que nos vigia e obriga todo o tempo, mas cada um de nós se tornou seu próprio gerente e explorador. A frase repetida, "seja você mesmo", esconde uma tirania silenciosa, uma obrigação de ser produtivo, criativo, otimista, feliz e bem-sucedido o tempo todo. O resultado disso é uma sensação de esgotamento permanente, um cansaço psíquico crônico.

Vivemos hoje sob o imperativo da performance. Não há mais um “outro” que ordena, proíbe ou reprime de fora; o comando foi internalizado. Cada indivíduo se tornou empresário de si mesmo, gestor de sua própria vida e energia, responsável por extrair de si o máximo possível, não por coerção, mas por adesão. Segundo Byung-Chul Han, a exploração hoje é autoimposta, e justamente por isso, mais eficaz.

Nesse contexto, o cansaço assume uma nova forma, ele não é resultado de um dia cansativo, mas um modo de vida exposto a todo momento a uma economia da atenção e da extração máxima de si. Por isso, o sujeito cansado continua funcionando, pois nada pode parar. Ele responde mensagens, consome conteúdos, otimiza rotinas, organiza a vida. Sua exaustão não interrompe o sistema, ela o sustenta. 

O cansaço, hoje, não é um acidente, mas um modo de vida. Não se trata de uma fadiga localizada, consequência de esforço físico ou excesso pontual, mas uma exaustão difusa, sem causa clara, sem objeto preciso, sem repouso suficiente. Um cansaço que não se resolve dormindo, porque não emerge do corpo apenas, mas de um modo de vida que mobiliza a própria subjetividade, a psique e as emoções, como campo de produção. 

Esse cansaço se manifesta pelo excesso de estímulos, com o bombardeio constante de informações, notificações, opções de consumo e chamadas de redes sociais. Nossa atenção flutua, dispersa, sem nunca repousar em algo. Não há mais tempo para parada, contemplação ou tédio, que para Han é um estado criativo por excelência, onde podemos parar e gestar algo novo. Em seu lugar, há uma agitação que esgota o sujeito por conta do hiperestímulo. Este não consegue mais se concentrar nem sentir prazer duradouro, sua existência se tornou uma sequência de pequenos espasmos reativos.

Para Byung-Chul Han, é justamente o excesso de positividade, que estamos cansados. Por ter de ser constantemente um "projeto de si mesmo", que não é mais explorado de fora, ele se explora voluntariamente acreditando ser livre. Cada momento de sua vida deve ser produtivo, cada talento "monetizado" e cada emoção negativa deve ser convertida em otimismo e positividade. O resultado disso tudo é o burnout, não uma revolta contra um patrão, mas o colapso de quem não consegue mais suportar as exigências internas de precisar ser sempre melhor, mais rápido e mais feliz.

Essa sensação de cansaço logo se converte numa culpa difusa, numa época em que nunca fizemos tanto e, ao mesmo tempo, nada parece ser suficiente. Não há mais parada, não há mais silêncio, não há mais tempo improdutivo que não seja imediatamente colonizado por alguma função. Nesse contexto, o "descanso" se torna estratégico, calculado e instrumentalizado. Não é um intervalo, mas uma técnica para continuar produzindo, produzir mais e melhor. 

O sintoma mais evidente dessa escravidão voluntária é o cansaço que não tem causa externa clara, que nos acompanha ao acordar, que transforma pequenas decisões, como responder um e-mail ou escolher o que comer, em algo excessivamente difícil e desinteressante. E o pior é que, nesse modelo de vida, o fracasso não costuma ser entendido como um problema sistêmico, ou uma falha externa, mas é geralmente percebido como uma falha pessoal, de caráter. Ou seja, o indivíduo se culpa por seu próprio fracasso, numa sociedade que sempre o obriga a explorar mais a si mesmo.

Essa sensação geralmente não se resolve apenas dormindo ou fazendo uma "desintoxicação digital" passageira. Esse cansaço como sintoma de um modo de vida exige uma transformação mais radical, é preciso aprender novamente o não-fazer, exercitar a parada, a contemplação e o distanciamento. A arte de não responder aos estímulos, o ócio contemplativo (sem finalidade) e o direito de ser improdutivo sem culpa. É preciso reintroduzir a negatividade que a sociedade do desempenho baniu, o "não" ao excesso, "não" à autoexploração, "não" à tirania do otimismo. 

Enquanto não rompermos com a lógica de que descansar é um preparo para produzir mais, o cansaço continuará sendo uma condição silenciosa de uma vida doente. Pois, como escreve Han, na Sociedade do Cansaço, a verdadeira fadiga não é aquela que nos leva à cama, mas aquela que nos impede de ver que a cama não é uma solução, mas apenas um espelho da nossa exaustão de existir.

Nem todo cansaço é igual, há um cansaço da hiperatividade, da sobrecarga, da incapacidade de parar, que esvazia, fragmenta e dissolve o sujeito em dispersão contínua, um cansaço que não produz experiência, apenas desgaste. E outro cansaço mais profundo, quase contemplativo. Um cansaço que não esgota, mas desacelera, que suspende a lógica da produção e permite que algo aconteça. Nesse cansaço, o sujeito não é sugado, mas devolvido a si mesmo.

Esse cansaço contemporâneo é, portanto, um sintoma político e existencial. Ele revela um modo de vida que não deixou mais espaço para o negativo, o limite, a pausa e a recusa, vivendo numa positividade excessiva, onde tudo deve ser feito, avaliado e explorado. 

Talvez a questão não seja eliminar o cansaço, mas transformá-lo. Não fugir dele, mas atravessá-lo até que deixe de ser apenas sintoma de exploração e se torne possibilidade de ruptura. Porque, no limite, o verdadeiro escândalo não é estarmos cansados — é estarmos cansados e ainda assim continuarmos exatamente do mesmo modo. 

Romper com Moralismos

Um convite a rir do moralismo, abrir espaços de liberdade e compor a vida como obra de arte. Para libertar-se das culpas herdadas, de julgamentos que diminuem e regras que seguimos sem questionar...