Terapia do Acontecimento com John Cage

Pensar uma terapêutica a partir das perspectivas de John Cage consiste em modificar a própria ideia de terapia. Cage não fez música para repetir a tradição musical ocidental, mas para colocar em questão e ampliar o que se entendia por "música", questionando os critérios que definem o que é música, incluindo o silêncio, o acaso, o ruído, os sons do cotidiano e a indeterminação na composição.

Em suas composições, ele não propunha a expressão do sujeito, mas a descentralização do sujeito. Ele não buscava expressar sentimentos ou fazer com que a música se tornasse algo identificável e nomeável, mas experimentar, deslocar e provocar um movimento na experiência sonora. A terapêutica, então, se torna um laboratório de escuta do acaso, do silêncio e do imprevisível.

Podemos pensar uma terapêutica enquanto uma composição de acontecimentos, abandonando a tentação de traduzir o que é dito em metáforas psicológicas, para trabalhar a partir do que acontece em seu acontecer. Sua postura, enquanto compositor, não tinha como objetivo "harmonizar as emoções" ou "expressar uma interioridade", mas possibilitar condições para que algo aconteça.

"O mais alto dos ideais é não ter ideal algum. Isso nos põe em consonância com a natureza quanto à sua maneira de funcionar."
(John Cage, citado por Marshall McLuhan)

Deste modo, a terapia deixa de ser uma prática de interpretar um sujeito e torna-se meio para escutar o acontecimento. Não existe silêncio, vazio psíquico, nem "sessão improdutiva". No espaço terapêutico se escuta e se amplifica o quase-imperceptível. O controle cede espaço ao indeterminado, reduzindo a centralidade do “eu” narrativo, a necessidade de uma linearidade ou de uma coerência biográfica.

Trata-se de pensar o sujeito como um campo de processos e movimentos, em constante transformação, e não como uma essência. Nesta perspectiva, o sofrimento pode ser pensado como uma necessidade ideal de sustentar uma identidade estável e permanente. A proposta de Cage aposta em permitir experimentar artisticamente as oscilações da vida e abraçar a impermanência.

"Arte é uma forma de expelir ideias - as que catamos dentro e fora de nossas cabeças. O que é maravilhoso é que quando as expelimos - essas ideias - elas geram outras, a começar pelas que nem estavam em nossas cabeças."
(John Cage, em 'De segunda a um ano')

O acaso pode ser utilizado como dispositivo clínico. Cage utilizava procedimentos aleatórios (como o I Ching) para compor, não como um improviso caótico, mas com um método de despersonalização, provocando um estranhamento com a experiência sonora e com relação a si mesmo. Neste sentido, podemos incluir elementos imprevistos na sessão, como exercícios experimentais sorteados e mudanças na rotina dos encontros.

Seu intuito não é desorganizar, mas romper com os automatismos existenciais. Nessa perspectiva, o sofrimento não deriva apenas de conflitos inconscientes ou de dilemas mal resolvidos, mas de repetições de padrões e modelos rígidos. O acaso atua como uma fratura produtiva, fazendo com que a prática terapêutica modifique as condições de percepção e produzindo novas experiências.

"As pessoas ainda pedem definições, mas agora é tranquilo que nada pode ser definido. Muito menos a arte, seus propósitos, etc. Não estamos certos nem sobre cenouras."
(John Cage, em 'De segunda a um ano')

As sessões podem incluir caminhadas, mudanças na posição e localização no espaço, exercícios de escuta do ambiente, entre outros. Não se trata de interpretar o sujeito, mas de acompanhar o campo onde ele se move, dissolvendo a distinção entre a terapia e a vida. Se o sofrimento for lido como uma forma de rigidez e repetição na rítmica da vida, a terapia opera como uma reconfiguração.

Na música, sua ética da não-interferência, liberta os sons, deixando que sejam eles mesmos. Cage não impõe um significado ao som. Do mesmo modo, a terapia não precisa encontrar significados para a existência. O terapeuta sai da posição de especialista, sem forçar sentidos, nem colonizar as experiências ou apressar conclusões, propondo pensar a vida como um campo de experimentação.

"Não posso dizer a ninguém como escutar nem como ver, certamente não posso dizer o que recordar. Particularmente, eu não quero me recordar de nada."
(John Cage, em 'Entrevista sobre o silêncio')

Cada sessão pode atuar como uma composição temporal, suspendendo a centralidade do sentido e do "eu", operando por variações e diferenças, reduzindo a obsessão por uma "descrição" psicológica. É um trabalho menos arqueológico e mais composicional, não busca uma verdade do sujeito, mas a ampliação de seu campo de experiência, para uma maturidade ao lidar com a indeterminação.

A potência dessa terapêutica está em produzir deslocamentos, liberar modos de vida cristalizados e transformar a terapia numa prática estética. Se, para Cage, qualquer som pode ser música, qualquer modo de vida pode ser vida, assim o acontecimento serve como matéria de transformação. A clínica deixa de ser uma decifração de enigmas e torna-se uma arte de permitir que o inesperado aconteça.

"E qual é o propósito de escrever música? Um, claro, é o de não lidar com propósitos, mas com sons. Ou a resposta pode ser dada sob a forma de um paradoxo: um despropósito proposital ou uma brincadeira sem propósito. Essa brincadeira, contudo, é uma afirmação da vida - não uma tentativa de dar ordem ao caos, nem tentar melhorar a criação, mas simplesmente um modo de despertar para a própria vida que vivemos, que é tão boa se tiramos de seu caminho o nosso intelecto e o nosso desejo, deixando-a agir de seu modo."
(John Cage, em 'Silêncio') 

Sintetizando, ao pensar uma perspectiva terapêutica a partir de John Cage, podemos trocar as perguntas clínicas tradicionais, de "O que essa pessoa tem?", "Qual a causa disso?" ou "O que isso significa?", para "O que pode emergir a partir disso?", fazendo da terapêutica um campo de experimentação de pensamento e de outros modos de vida.


Ensaios pensando a terapia com filósofos:

 

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